Bom dia, boa tarde, boa noite.
Os escritos são intemporais e o mundo, o mundo dos que visitam este telhado, reparte-se pelo mundo que a geografia descreve.
Assim, a cada visitante, desejo as boas vindas.
Desejo que neste telhado encontrem algum raio de luz, calor, reencontrem lágrimas.
Não sei se voltarei a escrever aqui.
O tempo passou, o mundo mudou.
Eu não mudei. Cresci? Também não sei.
O tempo, aquele que nos faz falta para viver e demasiadas vezes se confunde com o tempo que um olhar para os ponteiros do relógio nos devolve, traz consigo alegrias e aprendizagens e, não poucas vezes, deixamos, porque já foi feita a troca necessária, coisas e pessoas pelo caminho.
Importa isto, acima de tudo.
Tenho pelo Lazy Cat um enorme carinho.
Por todos os que me leram, comentaram, por todos quantos por aqui passaram em silêncio.
A todos, sem excepção deixo um sentido OBRIGADA.
Por isso, bom dia, boa tarde ou boa noite e, até sempre.
RC aka Lazy Cat
...e fechou os olhos.
Dilui-se num misto de algodão e tinturas e desperta envolta em panos coloridos esvoaçantes, debaixo de um sol tórrido. A luz, intensa e brilhante, cega-a por momentos, e torna a sua pele escura...
Olhando em volta apenas vê panos e mais panos, do branco ao índigo, amarelos e laranjas, azuis e violetas, em filas intercaladas de estendais.
- Não haverá casas?
Procura o centro daquela explosão de cores e descobre uma casa baixa, da cor da terra, desbotada pelo sol. Vários terraços suportam estendais de panos ondulantes e, à esquerda, debaixo de um alpendre de paus toscos que prendem longas tiras de tecido, hamacs coloridos, suspensos à sombra e uma fonte da qual a água sai em gotas que se evaporam no ar.
- Curioso como o efeito é refrescante!
Pensou chamar, não vendo ninguém mas, na realidade não saberia em que língua falar, apesar de lhe parecer estar em África. Não fazia a menor ideia de onde estava, de que época poderia ser, não tinha sequer a certeza, naquele momento, de não estar a sonhar.
Procurou identificar algumas das frutas colocadas em pratos e travessas ricamente trabalhados, em materiais que não conseguia identificar mas não foi capaz. Nada daquilo lhe era familiar. Dando mais atenção aos pormenores, as mesas tinham pés extremamente altos, para mesas baixas pelo menos, e os hamacs estavam à altura do peito dela.
- Mas quem é que se consegue deitar a uma altura destas?
Procurou escadas ou bancos. Não encontrou. Calculou que no mínimo, para se conseguirem içar, aquelas pessoas terias que medir dois metros! As mesas eram também muito bonitas, sólidas e elegantes, num tom invulgar, o mesmo que a terra daquele lugar. Trabalhadas, e de formas incertas. Nenhuma era rectangular, os pratos também não eram redondos, quadrados ou ovais. Os pilares de suporte do alpendre, todos eles trabalhados também, eram de cores diferentes e com uma inclinação fora do comum.
- Onde é que eu vim parar desta vez?
Porque el cuerpo jamás habrá de ser el limite...
As janelas tornavam o dia mais frio e como que deixavam entrar o vento. Sentada ouvia os barulhos da rua. Tanto movimento, tantas mães, crianças, famílias! Carros, sirenes, comboios e até aviões.
(Como é que eu vim parar aqui?)
Luzes que se começavam a acender, nas outras janelas e nas ruas, faziam ainda mais triste e cinzenta a sua. Fechavam-se estores. Gente conversava na rua. No andar de cima arrastavam-se cadeiras, noutro lado qualquer eram banhos e correrias.
(Um dia sei de cor os horários de cada vizinho!)
A janela cinzenta e fria, o vento. Uma casa inteira. Vazia. Uma casa sem vida e sem marcas de vida, sem histórias e sem memória. Imagens, sim. Imagens, quadros, fotografias. Sem alma, sem cor, sem...
Olhava em volta sem saber realmente onde estava. Em que lugar, em que casa. Em que sofá, a olhar pela triste janela para a gente triste que se queixa e arrasta e de repente sentiu-se muito triste também, porque se estava a tornar como ela.
(lá no fundo sabia que nunca seria igual)
A rotina e despotismo das horas e dos dias, dos compromissos e dos “tens que” e dos “devias” também a obrigava a ser assim, trabalhadora duma colmeia onde tudo se destina unicamente a um só fim. Para cada uma delas, pessoas-abelhas, o mesmo. Chegar ao fim. Apenas. Ao fim do dia, da semana, do mês. De mais um ano. De uma vida. A entrar e a sair comandadas pelo relógio, em caixas de metal e vidro, dormir em paredes de papel. Amaldiçoar a chuva e o sol, as filas, as esperas, desdizer a vida e desfazê-la a cada desdita!
(e o mar ali tão perto!)
E a noite lentamente a cobrir os jardins sem flores, os pátios vazios, as janelas fechadas das gaiolas de cimento, iguais e diferentes, os telhados sujos, as paredes sem cor, as varandas vazias...
(e ela olha pela janela para tudo o que não vê)
E abre a porta, sem fazer muito barulho, e sai, assim, sem saber das horas nem das convenções deste estranho pedaço de mundo, de sapatos na mão, e aventura-se pelo escuro, pelo silêncio atravessado de vez em quando pelo som de uma televisão, única janela para outro mundo destas abelhas-trabalhadoras do betão, sai da colmeia e sente o vento, frio e furioso, ocupado a varrer papéis deixados no chão, num silvo constante e lamurioso de quem não tem como entrar ou sair, vagando entre as ruas desertas de gente.
(pelo menos sinto o frio, sinto o vento, sinto!)
Longe das gaiolas de janelas fechadas, das ruas desertas de almas, das luzes que iluminam espaços ocos e projectam sombras alongadas sobre os seus passos, enterra os pés na areia e caminha. Um pé pela areia seca outro na areia molhada e fria. E sorri.
(porque entre as estrelas e o mar está só, mas nunca sozinha)
O macaco, do alto da árvore, viu chegar a menina, o seu vestido colorido, o seu chapéu cheio de fitas. Pensou -se é que os macacos pensam- que devia ser divertido brincar com elas. E então pensou -vamos assumir que pensam- em como poderia tirar-lhe o chapéu.
Mas a menina, alheia à presença do macaco, cantarolava, sorrindo, entre flores e árvores e seguia o seu caminho, contente. O vestido a roçar-lhe os tornozelos, as fitas a dançar atrás dela.
Pensava -sim, porque as meninas pensam- em como era tão mais fácil seguir assim caminho, sabendo para onde ia. Pensava -porque esta menina gostava de pensar -que era feliz, no seu vestido comprido e com o seu chapéu de fitas, a caminho do seu cantinho. Tinha tudo quanto queria. Até tinha sandálias! Tinha tudo quanto sempre tinha sonhado e o que ainda não tinha, estava a caminho de encontrá-lo! E sorria, entre as flores e as árvores. Gostava de ter os pés nestas sandálias. Não lhe faltavam dúvidas, mas das coisas importantes, dessas, tinha certezas.
O macaco viu a menina sorrir. E viu o chapéu de fitas. E atirou-se repentinamente e arrancou-lhe o chapéu da cabeça! Desapareceu, num turbilhão de folhas verdes, perfilado a fitas coloridas. Sentou-se num ramo, de chapéu na mão, a olhar para as fitas. Puxou, mas não se soltaram. Pôs o chapéu na cabeça, mas tapava-lhe a cara e os olhos. Chateado, sentou-se em cima do chapéu e ficou assim, amuado, a olhar para o lado.
A menina caiu ao chão com o impacto. Não chegando bem a perceber o que era nem de onde tinha vindo. Levantou-se e procurou o chapéu por todo o lado. Não consegui encontrá-lo. Então, sentou-se na erva macia e chorou, um choro longo e desconsolado. Chorou cada sonho de cada fita, chorou cada desejo, cada desdita, chorou cada vitória e todos os beijos e todas as lágrimas e todos os segundos de vida passada e futura presos àquelas fitas. Sem sonhos, era apenas uma menina, nua e aflita. Era. Apenas.
E o macaco, no alto da árvore pensava, enquanto adormecia de consciência descansada, como era agradável e colorida esta nova almofada…
Não sei porque se afastam os passos,
Se contam os beijos, se mitigam os abraços.
Entre palavras e silêncios e gritos,
Todos os ditos e os não-ditos,
Porque se afogam os olhos, se apertam novelos,
se brandem razões e reclamam desditos!
Não sei porque se perdem os passos,
Se recusam beijos, se fecham os braços.
O envelope chegou pelo correio. Apenas ligeiramente maior e mais cheio que os habituais. Mas era diferente. Não era branco. O papel espelhava reflexos, à luz e, a diferença que sentia ao toque eram riscas. Uma textura de riscas finas que enchiam a pele e o faziam ter vontade de passar vezes sem conta os dedos pelos cantos do mesmo.
Não tinha remetente e não conhecia a letra do endereço. Mas era para ele, sem dúvida. Era o seu nome completo escrito a tinta azul. De forma estranhamente regular e elegante, dada a textura do papel.
Abriu a porta, pousou a pilha de correio e desfez o nó da gravata, o envelope ainda preso entre o polegar e o indicador. Acendeu a luz. Iluminaram-se as mesas baixas e os focos dos quadros encheram o ar de luz filtrada. Foi à cozinha, trouxe um copo cheio de gelo, serviu-se de whisky e sentou-se.
Voltou a olhar para cada lado do envelope e abriu-o. O papel, idêntico ao do envelope tinha gravado um símbolo que não soube identificar e, na mesma letra, elegante e feminina dizia:
“Esta é uma fantasia criada à sua medida.”
Deixou de parte o cartão e dedicou toda a sua atenção às 4 folhas impressas que o acompanhavam.
Francisco, este é o primeiro passo em direcção à…
:)
sugestões?
Desceu a escadas e sorriu.
Não se lembrava, desde há muito, de ver o sol através da porta assim cedo.
Não se lembrava desde há muito de descer as escadas a sorrir, sem a correria imposta pelos ponteiros déspotas de relógios que nem usava!
Não parou para ver que aspecto tinha no reflexo das vidraças. Não parou para atravessar a estrada. Entrou para o carro ainda com a música na cabeça e aquele sorriso preso nos lábios.
Afinal era fácil começar bem os dias!
Desceu do carro e sorriu.
Não se lembrava, desde há muito, de ver o mar assim tão perto.
Não se lembrava desde há muito de fazer um desvio pelo caminho, cheirar o ar, sentir o sol, perder minutos a ganhar vida!
Voltou para o carro com as ondas a fustigar as rochas lá ao fundo, salpicos de sal no cabelo ainda húmido. Voltou para o carro a sorrir. Em paz com o tempo, com as horas e com o mundo.
Afinal é fácil viver bem os dias!
Lazy Cat on this roof sat for the last time
Having some cheese and sparkling wine
Time has come to move on,
grab a rising star and go along
So dear friends, fair well, fair well
There's one ticket for plenitude
...use it well...
Meus queridos
Desejo-vos do fundo do coraçao um Natal Verdadeiro.
Muito, muito mais do que trocar prendas e enfeitar um pinheiro.
Muito para além das luzes e aparências.
Desejo-vos un Natal vivido por dentro, com coração e alma.
Um Natal em que o mundo inteiro estremece e se acalma enquanto a vida se apraz em simples e preciosos momentos de paz.
É isto que vos desejo, com amor...e um beijo!
... do bairro
... da cidade
... do momento
...perdidos no Tempo
...diários
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
[...]
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou em mim
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa
***
Disfarça em cada olhar
Quanto aprecia um carinho
Em cada passo altivo
Nunca assume que quer mimo
Enrosca-se dengosamente
Como se fosse favor
Deixar que lhe façam festas
Ou que lhe falem de amor
Ronrona para não miar
De como lhe sabe bem
Um colo, um abraço
Sabendo a sorte que tem
De sorriso misterioso
Mostra as garras à invasão
Assanha-se, presunçoso
Não suporta ouvir um não
Ainda que cativado
Um dia pode partir
Na memória cada traço
De tudo o que o fez sorrir
Sempre querendo mais mundo
nunca se satisfaz
e de um momento profundo
faz do prazer sua paz
Os olhos fecha atrevido
Nunca mostrando o que sente
Adivinha o que digo
Gato tem alma de gente
***
The cat went here and there
And the moon spun round like a top,
And the nearest kin of the moon,
The creeping cat, looked up.
Black Minnaloushe stared at the moon,
For, wander and wail as he would,
The pure cold light in the sky
Troubled his animal blood.
Minnaloushe runs in the grass
Lifting his delicate feet.
Do you dance, Minnaloushe, do you dance?
When two close kindred meet.
What better than call a dance?
Maybe the moon may learn,
Tired of that courtly fashion,
A new dance turn.
Minnaloushe creeps through the grass
From moonlit place to place,
The sacred moon overhead
Has taken a new phase.
Does Minnaloushe know that his pupils
Will pass from change to change,
And that from round to crescent,
From crescent to round they range?
Minnaloushe creeps through the grass
Alone, important and wise,
And lifts to the changing moon
His changing eyes.
William Butler Yeats
****