Sábado, 3 de Outubro de 2009
Geada

 

De onde quer que pousasse os olhos saltavam pequenos brilhos, frios e cintilantes.À luz parca da lua, a geada era magia, e onde quer que ela tocasse, tudo refulgia.Perto da casa, iluminada por um grande poste de luz esbranquiçada, toda a erva macia era um manto de prata que brilhava. Nunca sabia o que a trazia assim à rua.
 
Em pequena acreditava que era o feitiço da lua. Mas tinham passado muitos anos e ainda agora, a intervalos inconstantes, dava consigo descalça e meia nua, a olhar maravilhada para a dança interminável da geada e da lua. Não sentia o frio que se lhe entranhava nos pés, nas mãos, que lhe fazia sair da boca nuvens brancas de respiração. Não sentia o vento fresco que lhe gelava a cara e enrolava o cabelo. Nada disto era importante aparentemente e no entanto… algo a tinha trazido mais uma vez à rua.
 
O tumultuo no peito, o zumbido nos ouvidos, a confusão interior, tudo. Tudo parecia desvanecido. Havia apenas geada, e raios de luar que lhe soltava o brilho. Lembrou-se da encosta, do outro lado da colina, e da sua erva curta e macia descendo até ao riacho, em ondas plácidas de harmonia…
 
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Musica:

Lazy Cat às 12:04
| Ronronar |

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
Cansada

Cansada. Cansada de um mundo real em que as virtualidades tomam forma e se expandem no entanto como seres virtuais com garras e presas e interferem como estática, que queima lentamente.

 

Cansada. Cansada dos silêncios interrompidos de histeria. Cansada dos silêncios mantidos por teimosia, que se alongam e se prolongam e tomam conta de todas as noites e de todos os dias inexoravelmente.

 

Cansada. Cansada dos assaltos, dos altos, dos sobressaltos de uma história que não tem fio nem caminho e se desenrola ao sabor do ar e do vento e não é outra coisa senão esperança intermitente.

 

Cansada. Cansada de dar e ouvir e falar e dizer e sentir e ir e voltar e perceber e perdoar e de rever e repensar e de exultar e a seguir lamentar e depois voltar ao mesmo numa espiral crescente.

 

Cansada. Cansada de perder o Norte, de perder pé, de que tudo seja pensado e nada seja dito e assim se perca o diálogo, a capacidade de parar e ouvir, de tentar entender e respeitar num afastar latente.

 

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Imagem: Ajith Rajeswari
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Lazy Cat às 16:34
| Ronronar | Ronrons (6) |

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
...

Plantada neste alpendre
sinto água passar
não a vejo.
mas fecho os olhos
e ouço-a cantar

Ouço o vento no cimo
das árvores,
que me ritma suavemente
o balançar

tenho raízes, já não pés
folhas no cabelo,
frutos no olhar

seguro nos dedos
um ninho de pássaros
que já sabem voar

fundi-me com a paisagem
à espera de alguém
que teima em não chegar



Lazy Cat às 00:31
| Ronronar | Ronrons (7) |

Quarta-feira, 22 de Julho de 2009
Por um sorriso...

Por um sorriso teu
belo e espontâneo
pelo brilho dos teus olhos
o sentir instantâneo
pelo calor desses dedos

tão pequeninos
enredados nos meus
Fecho a porta às trevas,
ao vento, ao frio
resisto aos assaltos
ao abismo, ao vazio
Abro as janelas à luz
e a um novo vento
apago desilusões
e volto a abraçar o sonho

Sim...pelo sorriso
E também pelo dono...


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Lazy Cat às 00:53
| Ronronar | Ronrons (6) |

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
.|.|.

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Laços. Lassos.

Frouxos. Soltos.

E num afastar-te contínuo da cercania

o vento que rodopia...

 


Musica: Por ti - Ella baila Sola

Lazy Cat às 11:41
| Ronronar | Ronrons (1) |

Domingo, 10 de Maio de 2009
sabes, não sabes, sei, sabemos, não sabes...

 

Sabes que em cada olhar teu eu espero encontrar

uma e outra vez, tudo o que sabes dar?

 

 

Sabes que me desnorteias

quando me puxas, me repeles,

me amas a meias.

Sabes que em cada olhar teu

eu paro e espero e em

cada palavra vazia

me retorço e desespero

Sabes que te vejo de dentro

te conheço já bem por fora

e sei de cor o teu centro

 

Não sabes se me sabes amar

nem sabes se amar se aprende

escondes-te em cada olhar

com medo do que ele desvende

e prendes o teu olhar ao meu peito

que respira o teu ar

abraças-me quando me deito

e és meu, até a noite acabar

 

Eu sei que no fundo do

olhar que procuras

vês águas calmas

e pagãs loucuras

vês um fio ténue de amar

tecido entre zangas e juras

e desvias o olhar lentamente

dos olhos que afinal procuras

porque é grande demais a promessa

e maior ainda a lonjura

mas no tempo que se atravessa

viver sem amar é loucura

e abres os fechos devagar

soltando as peças da armadura

pelo brilho fugaz de um olhar

te deixas prender e ficar

e descobres, louca criatura

que o amor que o olhar encerra

é a mais eficaz armadura...

 

 


Musica: The killers-Spaceman

Lazy Cat às 23:59
| Ronronar | Ronrons (3) |

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009
Loneliness

 

 

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“Sittin here resting my bones
And this loneliness won't leave me alone
It's two thousand miles I roamed
Just to make this dock my home”

 

E assim se mudam vidas e se perdem caminhos

Entre sonhos despertos e desejos perdidos

Assim se constroem barreiras e fecham portas

Entre folhas vazias e música feita sem notas.

 

Descuram-se detalhes, desviam-se olhares

Procura-se uma mão, apenas, entre milhares

Encontra-se um vazio, repleto de solidão

Vagueia-se, entre a realidade e a perfeição.

 

E, assim se encontra um lugar, a meio de nada

Meio dia, meia noite, meia madrugada,

Sem lugar marcado e sem tempo definido

Só. Algures entre o sonhado e o sentido.

 

                               Só. Sem chão e sem telhado.

 



Lazy Cat às 14:55
| Ronronar | Ronrons (6) |

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Olhos postos em ti...

 

 

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Tenho os olhos postos em ti, num fim de tarde solarengo. Trajamos ricamente, sedas e cetins bordados, ouro e filamentos. Estamos cusiosamente perto. Fisicamente perto. Tão perto que posso sentir o te cheiro. Já o conheço de há muito, é o  teu. Suavemente inebriante.

Tenho os olhos postos em ti. As caras tapadas por máscaras cinzeladas. Finamente decoradas. Estamos curiosamente longe. Tão longe que te tenho à minha frente e sei que não estás presente. Perdi o fio do teu pensar. Como acontece muitas vezes, és minha de forma intermitente.

Tens os olhos no horizonte, quem sabe até para lá do mesmo. Sinto o teu corpo, macio, quente, estás encostada a mim, presa a um fio de pensamento distante. Estás do outro lado do mundo, do outro lado da vida, do lado de outro alguém , possivelmente. Estás muito para lá de mim, quieta à minha frente.

 

 



Lazy Cat às 18:02
| Ronronar | Ronrons (5) |

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
Perdurar

 

 

Sombras de sal sobre a areia de cores cambiantes

Sombras que se alongam passos hesitantes

Marcas que se somem na frieza da espuma molhada,

Sinais de passagem, que se perdem na madrugada.

 

Marcas de dedos que outrora me prenderam

Marcas de dedos que agora me aconchegam

Nesta estranha luta entre ser e querer e pertença

Nesta inusitada dança, de entrega e bem querença

 

Sinais de ti em cada desenho feito ao acaso,

No escurecer trémulo do sol que se aquieta

Sinais para ti em cada linha, em cada palavra

Em cada silêncio que as ondas sem dó apagam

 

 

 

 

 

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Lazy Cat às 16:00
| Ronronar |

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
AMO-TE JGB

Há, no meio da multidão de sombras hirtas que se move, uma certeza. Uma diferença, aquela,  inapercebida de tão pequena, que faz com que respire e passe os meus dias de forma serena.

No meio das vozes discordantes, das mãos que se empenham em obras gigantescas, desequilibradas, impossíveis de segurar, dos corpos que se afastam, se repelem, se atraem e se culpam e depois se despedaçam, agridem e acusam, no meio das caras lavadas de lágrimas e coradas de raiva, no meio dos olhos fechados para tentar prender um sonho e dos punhos abertos, em sinal de abandono, no meio desta multidão de gente perdida, que me acompanha e me visita, no meio de toda esta loucura, desta fúria, desta vida contrafeita, desta corrida destemida contra tudo e contra todos, pintada de passado e bordada a futuro em sonhos, no meio desta luta constante para não se deixar tocar...eu procuro o teu braço, sabendo que o vou encontrar.

E é nesse momento, em que nos tocamos, no calor do teu corpo que se encosta ao meu, na força do teu sorriso, nos teus olhos cor do céu, na tua mão que procura a minha, na respiração que ainda não mudou e já se adivinha, no simples encostar de cabeças, quando apenas ficamos a sentir o sabor do outro, que encontro a força de que preciso, esse combustível raro e precioso, de que me alimento a cada dia, para resistir a uma multidão de gente triste e vazia, cheia de arrogância,  ignorante e fria.

Há, no meio da multidão de sombras hirtas que se move, uma alma diferente. Uma alma com destino selado, preso ao meu, por mútuo desejo confessado,  de acordar e adormecer eternamente, lado a lado.

 

 

 



Lazy Cat às 17:05
| Ronronar | Ronrons (3) |

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
L'albatros

 

 

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,

Qui suivent, indolents compagnons de voyage,

Le navire glissant sur les gouffres amers.

 

A peine les ont-ils déposé sur les planches,

Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,

Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches

Comme des avirons, traîner à côté d'eux.

 

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!

Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!

L'un agace son bec avec un brûle-gueule,

L'autre mime, en boîtant, l'infirme qui volait!

 

Le Poète est semblable au prince des nuées

Qui hante la tempête et se rit de l'archer;

Exilé sur le sol au milieu des huées,

ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

                                                  Charles Baudelaire- Les fleurs du Mal 

 

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Souvent les gens s’oublient d’eux mêmes,

S’oublient même de respirer,

Pris entre les vagues qui vont et reviennent

De la vie qui les a emprisonnés

 

Les pieds pris à la terre humide

Ou un Dieu tiran quelconque s’amuse

À les faire enliser, perdent leur temps

De façon inutile, à essayer de se dégager.

 

Munis des ailes du rêve

Et de toute la puissance de l’imagination

Ils s’enterrent à chaque pas

Pris dans les filets comme des poissons.

 

Les gens, ces gens sommes nous.

Chaque jour et a chaque instant

Munis de tout pour être heureux,

vivant une vie d’êtres impuissants.

 

Peut-être un jour pourrons nous comprendre

Que notre place est celle ou l’on est bien.

Que si l’on aime on aura tout

Qua sans amour tout sera rien.

 

 

 

 

 

Letra da música


Musica: A Cause * Céline Dion

Lazy Cat às 16:01
| Ronronar |

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
NATAL

 

Desejo-te :

 

O Natal mais feliz de todos os que já passaste. Que traga tudo o que sempre desejaste.

 

Pequenas prendas inesperadas…

Cartões empilhados na mesinha da entrada.

Embrulhos espalhados pelo chão. A Arvore no canto do salão.

 

Pancadinhas na porta. Gente a entrar.

O calor da lareira e os cheiros de sempre no ar. Família a chegar….

 

A mesa posta. Brilhos. Cristais e Pratas. Azevinho por cima das portas.

Todas as sobremesas de que gostas…..

 

Desejo

Que a noite de Natal seja tudo o que recordas

A quietude no meio do bulício. Os afazeres.

Cozinhar, receber amigos, recordar…

 

Sorrisos. Abraços. Um beijo apenas esboçado.

Presentes escolhidos para ti. Com Amor e cuidado.

 

O chão coberto de papel amarrotado. Fitas, laços, prendas por todo o lado…

 

Desejo-te amor e amizade.

Cartões que espalham pó brilhante, marcadores de livros, um postal, uma lembrança.

 

Um obrigado sussurrado. O beijo duma criança.

 

Aqui me tens a desejar-te mais um Natal cheio de caras sorridentes,

vozinhas de criança no meio do corredor em vez de despertador. Olhos brilhantes. Abraços de bracinhos hesitantes.

 

O aroma das festas passadas e de todas as que hão de vir.

Um Natal para acordar e adormecer a sorrir. Canções, silêncios.

Momentos calmos. Intensos. Saudade, cumplicidade.

Amor e Amizade. Uma casa cheia de alegria.

 

Desejo-te…um tempo fora do tempo, carregado de magia.

 

 

Letra da música


Musica: I'll be Home for Christmas

Lazy Cat às 10:04
| Ronronar | Ronrons (2) |

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Mundo sem Tempo

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Enquanto cai a noite e espero quem não chega

Encontro nas palavras a mão que me aconchega

E quando raia o dia e sol me vem acordar

Perco-me em sonhos e fujo ao despertar

E de novo passa o dia sem tempo de viver

E volta a saudade vadia para me adormecer

 

 

E assim se faz a vida de tempos sem contar

Entre o que tem muita força e o que está por acabar

Assim se afogam sonhos em ser obrigados a estar

Com horas e sempre em qualquer lugar

Mas no meu mundo o tempo

É relógio por acertar

Não existem compassos nem caminhos para trilhar

Vive-se de dentro, vive-se de sonhar

Em janelas de vidros despertos

Em portas de deixar entrar

Não existe esquecimento, não existe desejar

Apenas um raro momento em que se sabe estar.

 

 

E rondam a chuva e vento, sem se atrever a espreitar

Porque num mundo perfeito apenas Amor tem lugar….

  

 


Musica: Emozione per sempre-Eros R.
Imagem: Monica Shelton-Interlace II

Lazy Cat às 22:00
| Ronronar | Ronrons (2) |

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008
TU

 

 

 

Vento. Frio em rajadas e água em choro lento. O tempo fala de ti em sopros, em uivos, em voz de lamento.  Vento, que me aturde e enrola os pensamentos, frio que me gela o corpo por fora e por dentro e água que suja mais que lava a alma e a enche de tormentos.

E depois chegas tu. Num halo de carinho, amável e sorridente. Pára a chuva nos telhados, amaina o vento nas esquinas, recolhe o frio ao seu lugar, fecham-se todas as cortinas. Aqueces o corpo, despes a alma e fazes das noites, em contraste com os dias, histórias leves e tranquilas.

 

 

 

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Musica: a mesma. Tu.
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Lazy Cat às 19:33
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008
Dancing Souls

 

 

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Deitada de barriga para baixo num ramo, vejo passar um cachorro, malhado e com ar de estar perdido. Fareja daqui e dali, levanta o focinho e fica a olhar para mim. Não me vê, eu sei, mas pode sentir-me. Lá atrás vêm dois miúdos ruivos de roupas coloridas, a brincar às escondidas entre os troncos da minha casa. Ela Traz uma cesta que vai enchendo de folhas e ramos. Ele ri-se e enche-lhe o cesto de pedras, porque brilham e ele gosta delas. Ela acha que é um despropósito ser ela quem leva a cesta e ser ele a escolher os tesouros mais pesados. O cão deve achar que são os dois tolinhos, porque ele, que tem um faro muito mais apurado, ainda não encontrou tesouro digno desse nome nem à beira do caminho, nem entre as árvores e muito menos debaixo da erva fria e molhada. Se calhar ainda é muito cedo, e só mais tarde os ossos se vão mostrar. Se calhar.

A fechar a marcha, muito atrasado,  vem um casal ainda novo. Entretidos a namorar, vão deitando um olhar distraído às crianças, brincando com os dedos um do outro, usando as janelas do meu palácio de verão para se perderem e encontrarem. Ela é morena, de cabelo comprido, ele loiro, a tirar para o grisalho. As gargalhadas deles ecoam por entre os troncos, as crianças olham para tràs e encolhem os ombros, como se fossem eles os adultos e os pais se estivessem a comportar como crianças. Não que seja novidade. Os pais vivem apaixonados.  O menino corre, com uma pedra azulada na mão, e oferece-a de presente à mãe. A menina, para não ficar atràs, escolhe a folha mais bonita para oferecer ao pai. O cão, não lhes querendo ficar atras, enche-lhes as pernas de festas enlameadas.

São raras as visitas humanas. O caminho é fresco e sombrio e nem toda a gente gosta de passar por aqui. E eu gosto que assim seja. Gosto de ficar deitada sem nada em que pensar, deixando que tudo ou nada venha ao meu encontro. Gosto de ficar à espera que as gotas de orvalho escorreguem pelas folhas e caiam no chão. Gosto deste frio inerente, desta sombria solidão. Gosto dos raios de sol, calor intermitente das tardes amenas de verão. Gosto dos despertares lentos, qua a natureza acompanha, gosto do vento que me acaricia e da chuva que passa sem me tocar. Gosto de ser apenas alma e de mesmo assim poder dançar. Entre os ramos e as folhas, entre as copas das árvores mais altas, melodias lentas, mãos e pernas soltas, gosto do vento que me faz girar. E da mão que sempre encontra a minha, fazendo de mim o seu par.

 

Inspiração : Fábrica de Histórias

 


Musica: Everything- Michael Bublé

Lazy Cat às 19:01
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
Estranha forma de vida

 

 

(I)

Ontem não te vi. Sentei-me como de costume junto ao vidro da esquina. Pedi o mesmo chá de sempre, a mesma fatia de bolo. Estava tudo igual. A única diferença é que por vezes escorre água pelos vidros, que tornam indistintos o teu sorriso e o teu olhar. De resto, todas as minhas tardes são iguais. Como o mesmo bolo de maçã e canela com que nos deliciávamos, bebo o mesmo chá que sempre bebi. Sento-me na mesma cadeira de sempre, porque deixo a outra vazia para ti. Não sei se alguma vez me viste. Sentada no canto, de frente para o vidro. Procurando-te com o olhar de cada vez que a porta gira. O edifico sombrio em que trabalhas tem isto de bom, o café em frente,  com vista para a tua vida.

(II)

Mas ontem não te vi. E tu nunca deixaste de aparecer. Nunca deixaste de sair à mesma hora, nunca deixaste de fazer o mesmo percurso. Apenas deixaste de entrar sorridente pela porta do café e de te sentar ao meu lado para me contar o teu dia. Nunca deixaste de sair a horas. O que pode ter-te acontecido para que descures o teu ritual sagrado de trabalho de segunda a sexta? Onde podes estar que não vens passar à minha frente, para me encher os olhos de brilho? Não tiras férias em Outubro. Não faz parte do ritual. Férias são sagradas. No verão. No final do ano. As férias são para passar com quem se gosta. Onde estás tu, tu de quem eu gosto, ainda que não gostes de mim, tu que espero e por não te ver desespero assim. Onde estás?

(III)

Ontem não te vi. Voltei para casa sem saber como não perdi o rumo. O teu ritual quebrado desfez o meu. Acabou-se a semana sem me despedir de ti. O que te fez desaparecer assim? Passei pela tua casa hoje. A luz da sala estava acesa, depois apagou-se. Achei que era um bom sinal. Depois vi as sombras na parede do teu quarto. Duas sombras. Depois vi-vos pela transparência desfocada das cortinas que escolhi para a janela do quarto. E ouvi-lhe o riso quando a veio fechar. E deixei que as mãos dela fechassem todas as portas e todas as janelas e quebrassem todas as pontes entre tudo o que não existe e eu. E uma parte de mim, hoje, morreu.

 

 


Musica: Estranha forma de vida
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Lazy Cat às 10:55
| Ronronar | Ronrons (12) |

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008
PARABENS

 

 

 

 

 

Quarenta anos de sorrisos e de lágrimas de lições e arrependimentos de ilusões, sonhos e desentendimentos.  Quarenta anos de esperanças, de viagens e e paragens. De vindas, idas, despedidas e mudanças. Quarenta anos de chegadas...

Quarenta anos de melodias, de músicas e recomeçar os dias. Quarenta anos de paixões. Quarenta anos de amores perfeitos, imperfeitos, de pares e laços desfeitos. Quarenta anos de  soluções. De emoções. Quarenta anos de magia...

Quarenta anos de abraços. Quebrar e recomeçar com pequenos passos. Quarenta anos de pequenas guerras e grandes vitórias. Quarenta anos de multidão. Quarenta anos de solidão. Quarenta anos para chegares a mim...

 

 

 

 

 

 

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PARABÉNS.



Lazy Cat às 13:15
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
Hoje

 

 

 

Hoje não foi um dia feliz.

Fizeste-me muita falta.

Não te vi sorrir.

Não ouvi a tua voz.

Não senti o teu calor na minha cama.

Hoje não foi um dia feliz.

Ninguém devia estar longe de quem ama.

Não te senti respirar junto a mim.

Não senti o peso do teu braço durante a noite.

Não me pude enroscar em ti.

Não sei por onde andaste, não cozinhei para ti.

Hoje não foi um dia feliz.

O sol escondeu-se atrás de densas nuvens.

O peso da tua ausência esmagou o meu tempo,

fazendo-o passar triste e lento.

Hoje não foi um dia feliz.

 

 

 

 


Musica: esta ausencia

Lazy Cat às 23:59
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
Manhãs de Inverno

 

 

 

Acordo.  Ainda meia perdida nas brumas de sonhos vagos que deixaram o meu corpo a vibrar, procuro-te. O espaço ao meu lado está apenas morno, sinal de que já o deixaste há algum tempo, mas o quarto continua inundado de escuridão. Não te ouço. Procuro descobrir barulhos familiares pela casa, mas nada indica que ainda cá estejas. Estranho. Ainda não me mexi. Acho que nem abri bem os olhos. O meu coração bate mais depressa do que seria de esperar, o meu corpo não se conforma com a ausência do teu. Mexo-me levemente e o meu peito agradece a leve carícia dos lençóis. Puxo um braço para dentro da cama e descubro com um sorriso humidade e calor. Hummmm... Os meus dedos procuram dobras que conhecem bem, ouço-me gemer baixinho como se estivesse longe, está demasiado calor aqui e, enquanto as minhas mãos repetem gestos  que me levam cada vez para mais longe, as pernas destapam-me por inteiro, libertando o meu corpo, deixando que os movimentos se tornem mais livres e ritmados. O ar fresco do quarto enrijece-me os mamilos, tornando um breve tortura não ter a tua boca para os receber, os teus dentes para os mordiscar, a tua lingua vadia para os percorrer, devagar, muito devagar...

 

  

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É neste momento que me prendes as mãos, puxando-as para cima, enquanto o peso do teu corpo me esmaga contra a cama, o teu quer o meu corpo e é assim que o reclama. A tua boca molha a minha pele, morde sem escolher, o teu caralho procura o caminho e enterra-se possante numa cona macia que se molha para o receber.  As tuas mãos prendem-me e marcam os pulsos, algemas humanas impossíveis de quebrar  e retiras-te de mim no momento preciso em que me preparo para gozar.

 



Lazy Cat às 13:40
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Domingo, 19 de Outubro de 2008
STRENGHT

 

 

 

No sítio onde me vias, e a que já não podes chegar,

ficam réstias de bruma e um leve cheiro a mar.

Das mãos que te estendia, e não soubeste agarrar,

Fica no ar o calor, que o vento não quer apagar.

 

Na alma que visitaste, e soubeste marcar,

Nasce um novo sorriso, livre de despertar

Nasce uma nova consciência da palavra amar.

Um rumo retomado sem tropeços e sem hesitar.

 

Um retomar tranquilo dos dias lentos de antes

Sem a presença constante de mãos angustiantes

Um retomar tranquilo dos dias ricos de antes

Regressar de memórias cálidas mas distantes.

 

Do fundo do tempo que queres para ti

Do fundo do tempo que perdi para mim

Do fundo da alma que anseia por ti

Nasce a força que me devolve a mim.

 

Do amor que te tenho e terei sempre

Nasce a certeza ainda recente

Que não há laços que tudo curem

Nem abraços que sempre durem.

 

E de tudo aquilo que acabo de escrever,

Nasce a força de que preciso,

Para te amar e viver.

 

 

 

 

 

 

 

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Musica: Enya- May it be
Imagem: Fairy wood
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Lazy Cat às 16:47
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Sábado, 4 de Outubro de 2008
AnGeR

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Do recôndito espaço onde adormeço e me agarras, sinto as tuas mãos, dedos como garras. Do silêncio inquieto povoado de palavras, nascem movimentos, bordados de asas. Não há tempo, entre as horas que se esgotam, não há segredos nos infinitos que se gostam. Não há sorrisos camuflados de lágrimas, nem urgências perdidas nos “agora”. Do esquecido calor que emana do teu corpo, sinto-te presente e distante, aconchego e dor. Do vento que entra livremente pelas janelas, sabores agri-doces de mentiras singelas.

Do infinito díspar de sentimentos que se fundem, lágrimas cor-de-prata de nuvens que se afastam e iludem. Tempestades e trovões e todas as injurias, num manto de linho fresco, entre flores e ternas juras. Sol. Como queimaduras, desculpas em farrapos, como ligaduras. Não há veneno mais cruel nem pior mordedura, que a picada real em ferida madura. Não há silêncios balsámicos, nem gritos em armaduras, nem preço que pague o preço de deixar ganhar a vida. E adormeço aqui, entre areia e mar, no espaço onde me agarrras e não me deixo tocar.

 


Musica: Stand by me... lol
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Lazy Cat às 01:30
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008
- - - - - A estrada - - - - -

 

 

 

A estrada estendia-se sinuosa ainda que dela se avistassem apenas laivos de riscos brancos, como num filme a preto e branco antigo se distinguem falhas na pelicula por fugazes salpicos de luz.

Aqui e ali apareciam-lhe rostos familiares, hologramas projectados por uma infernal máquina invisivel que parecia persegui-lhe a vida com imagens desencantadas nos mais profundos baús de memórias, há muito enterrados e até agora corajosamente esquecidos.

Cumprimentava, com um discreto aceno de cabeça e um sorriso vago as caras que a faziam lembrar momentos cálidos, leves, pertença de outra dimensão e de outro espaço que não este, onde aliás não sabia muito bem porque estava, mas a estrada não a cansava, ainda que parecesse não levar a lugar nenhum e, de vez em quando lhe apresentasse rostos de que se desviava com um franzir de sobrolho, embora ficasse a pensar de onde e como e quando e porque lhe apareciam aquelas pessoas agora, a meio de um caminho tão agradável, ainda que escuro e algo misterioso. As imagens surgiam  e desvaneciam-se como  fogo-de-artifício, primeiro leves traços esbatidos de luzes coloridas, depois imagens brilhantes e expressivas, finalmente esmorecidas visões que se desfaziam em nada no breu que as devorava.

De ora em tanto era surpreendida por uma chegada mais vigorosa, fruto de uma lembrança recente ou de algum episódio marcante, mas da mesma forma que as outras, também estas imagens se desvaneciam, deixando lugar apenas à penumbra disfarçada de riscos brancos que pareciam indicar-lhe sempre a direcção da estrada. Batia-lhe no entanto o coração mais depressa, formando um eco no silêncio vazio da noite sem fim, quando um destes fantasmas a transportava sem aviso para outros tempos e outras paragens, para outras estradas, outros mares, e a depositava de novo repentinamente neste fio de estrada sem margem. Mas também o som se calava, afastando-se devagar com o vento que soprava do nada, sem direcção e sem rumo, embalando-lhe a lenta caminhada.

Depois de rever os rostos da sua história, uns sorridentes, outros acabrunhados, uns hesitantes, outros mal-encarados, verfuriosos ou carrancudos, voltava a fechá-los no baú, e mesmmo que quisesse revê-los estavam, desta vez, para sempre apagados.  

Ao fundo da estrada  o livro da vida, calmamente deliciado, ia desfolhando ao sabor do vento páginas que a traziam inevitávelmente ao ultimo capítulo, ainda por escrever, mas já resenhado.

 

 

 

 

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Lazy Cat às 16:26
| Ronronar | Ronrons (4) |

Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
Verão

 

 

 

 

 

 

 

 

Lá ao longe ouvia-se a fúria mansa do mar.  Os pneus pisavam as folhas que se desfaziam em pequenos gemidos e estalidos roucos. Corria uma brisa leve, apenas suficiente para refrescar o fim do dia de verão.

Ela tirou do carro um tapete fino que estendeu entre as árvores. Mediu as distâncias e mais uma vez verificou que ninguém os veria. Tirou-o do carro, de olhos vendados, despiu-lhe a roupa e dobrou-a cuidadosamente, guardando-a no carro.

Maravilhou-se mais uma vez com a firmeza daquele corpo, com a cor levemente dourada do sol, com o cheiro dele. Não conseguiu fugir à respiração acelerada dele, nem evitar que a sua se entrecortasse também.

Abriu-lhe os braços, palmas viradas para cima, afastou-lhe ligeiramente as pernas, passou-lhes os dedos levemente pelas costas, enquanto escolhia um ramo de pinheiro caído com o olhar...

 

 

 

 

 

 

Mais? Querem mais?    Escrevam....

 

 

 

 

 


Musica: Aceitam-se sugestões,

Lazy Cat às 17:00
| Ronronar | Ronrons (19) |

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008
understand that...

 

 

Alone with my thoughts this evening
I walked on the banks of Tyne
I wondered how I could win you
Or if I could make you mine
Or if I could make you mine

The wind it was so insistent
With tales of a stormy south
But when I spied two birds in a sycamore tree
There came a dryness in my mouth
Came a dryness in my mouth

For then without rhyme or reason
The two birds did rise up to fly
And where the two birds were flying
I swear I saw you and I
I swear I saw you and I

I walked out this morning
It was like a veil had been removed from before my eyes
For the first time I saw the work of heaven
In the line where the hills had been married to the sky
And all around me
Every blade of singing grass
Was calling out your name
And that our love would always last
And inside every turning leaf
Is the pattern of an older tree
The shape of our future
The shape of all our history
And out of the confusion
Where the river meets the sea
Came things I'd never seen
Things I'd never seen

I was brought to my senses
I was blind but now that I can see
Every signpost in nature
Said you belong to me

I know it's true
It's written in a sky as blue
As blue as your eyes
As blue as your eyes
If nature's red in tooth and claw
Like winter's freeze and summer's thaw
The wounds she gave me
Were the wounds that would heal me
And we'd be like the moon and sun
And when our courtly dance had run
Its course across the sky
Then together we would lie
And out of the confusion

Where the river meets the sea
Something new would arrive
Something better would arrive

I was brought to my senses
I was blind but now that I can see
Every signpost in nature
Said you belong to me


... "Out of the confusion, where the river meets the sea

The wind whispers I belong to you as you belong to me”

 

 

 

 

Sting "I was brought back to my senses" 

 

 

 


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Lazy Cat às 09:00
| Ronronar | Ronrons (13) |

Terça-feira, 29 de Julho de 2008
sempre

 

Haverá sempre palavras que não se dizem e perguntas que não se fazem.

Haverá sempre silêncios que nenhuma presença preenche e sorrisos que nenhum brilho ofusca, e haverá sempre, na certeza dos dias que passam, a fraqueza momentanêa de quem faz da vida uma luta. Haverá sempre pontos de interrogação suspensos ao longo do caminho e razões que não o são porque dela não necessitam, para se procurar uma mão, um abraço, ou um semblante de carinho.

Porque a vida é feita de passos, de avanços e alguns retrocessos, do longo desespero das falhas e de exultantes e breves sucessos, antes que o tempo apague da memória dos sentidos o que sinto quando hoje olho para ti, preciso dizer que hoje me apetece abraçar-te, prender-te, reter-te, mimar-te, aninhar-te num colo que tem o teu tamanho certo, fechar os olhos e sentir-te, afagar-te a alma, ter-te perto.  

Haverá sempre respostas que não se dão e palavras que não se calam.

 

 

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Letra da música

  

 


Musica: The Promise-Tracy Chapman

Lazy Cat às 17:30
| Ronronar | Ronrons (5) |

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008
Happy Birthday

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Porque não há palavras, nem frases, nem gestos, nem momentos grandes ou pequenos. Há apenas momentos, rasgos de luz, memórias incertas, mãos pequeninas que se reconhecem e se prendem. Não há lágrimas, não há dúvidas, não há perdão. Há por vezes um peso enorme no fundo do coração. Não há vida, não há espaço, não há recanto secreto onde não estejas sempre e sempre e sempre tu. Não há passo, não há desvio, não há caminho, nem sorriso arredio que não se faça por ti, não há distância impossível, não há silêncio, não há vazio.

Não há neste mundo louco que não sabe como parar, um dançar apenas que não seja feito de ti, um sussurrar que não tenha o teu nome, um abraçar que não diga, amo-te assim. Não há um acordar sem sorriso, apenas por te saber lá, não há, no luar impreciso da hora do chá, gesto pequeno e discreto que não grite até já.

Não há, apenas porque não pode haver, querendo quanto se quer, um igual querer. Não há mãos que te saibam melhor, nem colo que te aninhe tão bem, não há beijo mais perfeito, nada que se compare a ter-te porque és meu, parte de mim e no entanto apenas tu. Parte de tudo aquilo que sou, parte de tudo aquilo que sei, parte de tudo aquilo que vi.

Meu filho. Meu princípio e meu fim.

 



Lazy Cat às 18:43
| Ronronar | Ronrons (17) |

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
Te Quiero

 

Te quiero

Y no sé como decirlo

Me huyen las palabras,

Se parten como un hilo

 

Te quiero

Aunque no sepa enseñarte

El color de mi alma

Que se duele de amarte

 

Te quiero

Como me quiero a mi

Como no se quiere a nadie

Sino yo te quiero a ti

  

 

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Letra da música


Musica: Por ti-Ella baila sola
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Lazy Cat às 16:13
| Ronronar | Ronrons (10) |

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008
--.--.-- arabesque --.--.--

 

 

À luz pálida das estrelas e da lua em decrescente, pensou que era engraçado como tudo tinha um tempo. Um ciclo para tudo e para tudo um ponto final. As árvores da avenida sussurravam segredos ao vento, e os passos dela ecoavam, como se se tratasse de um caminhante distante.

Trazia um casaco pendurado no braço, apesar da névoa fria a fazer tremer de vez em quando, e da pele por debaixo da seda fina pedir mais aconchego, trazia o casaco pendurado no braço. O vestido comprido reflectia o firmamento, projectando na avenida parcos brilhos cintilantes. Madeixas rebeldes de cabelo ondulado fugiam do sóbrio penteado, balouçando a cada passo diante dos olhos dela. Não as afastava. Seguia uma linha imaginária, traçada a tinta de dor de alma, alheia ao lento balouçar dos barcos, presa ao movimento constante da aliança que rodava no seu próprio dedo.

O vento fez rodopiar algumas folhas secas, que se prenderam ao vestido. Pensou que mesmo depois do fim, há ironias do destino. Lembrou-se de dançar ao vento com as folhas mortas em dias de tempestade. Com as tempestades de fora sabia lidar, com ritmo, com danças de folhas a rodopiar. Esta tempestade de dentro, que a mergulhava numa tranquilidade aparente e ao mesmo tempo a transformava num turbilhão já vinha fora de tempo, não trazia chuva nem vento, nem folhas a levantar-se do chão. Mas tudo tem o seu tempo…

Lembrou-se do calor de outra mão. De simetrias perfeitas, de cumplicidade. Lembrou-se de sorrisos. Lembrou-se de muitas palavras, muitas vezes repetidas. E de paz. Teve saudades. Não do calor ou do aconchego. Quebrado o laço, tudo tinha sabor de segredo e falsa verdade. Mas saudades da paz. Da certeza do silêncio. Do peso leve da solidão consciente face ao pesado fardo da certeza confirmada. Ninguém muda. E um tudo, muitas vezes , é mesmo nada. Suspirou e levantou a cabeça. Chegava o tempo da madrugada.

À luz intermitente do farol, deixou cair o casaco e a aliança polida, deu mais um passo e outro ainda. De olhos sempre postos no céu. Fundiu-se no branco da espuma, agradeceu o abraço da água profunda e sorriu. Fechou os olhos e, no fim do seu tempo, morreu.

 

 

 

 

 

 

 

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Letra da música


Musica: Almost Lover-A Fine Frenzy
Imagem: Arabesque

Lazy Cat às 00:35
| Ronronar | Ronrons (6) |

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
…e entrei noutra dimensão…

 

Sem tempo sem horas, sem cordas nos relógios, sem varinhas de condão. Numa dimensão onde há histórias que são apenas isso, relatos de momentos passados, peças por encenar, que aguardam o actor ou a actriz certa, que se escondem nos recantos, nos abraçam e despertam.

Numa dimensão onde o medo retomou o seu lugar, na prateleira das certezas com que temos de lidar, onde o vento tem cores e a lua prateada se move à vontade entre estrelas cadentes e cometas, nas linhas da escrita dos contadores de histórias e dos poetas.

Onde o sol brilha de noite, se assim apetecer, os abraços têm sabores e as nuvens são neve a derreter, uma dimensão onde não há medidas nem limites, onde nada se perde ou se pode comprar e não há substituto para a palavra amar.

Há telas nas paredes, com lembranças do futuro, há balões que ainda voam ao milésimo furo, há estradas que nem começam nem acabam, e mãos que se fundem. Há no ar um vento quente, como um fim de tarde de verão. Há letras que se conjugam em paixão.

Também há silêncios, povoados de vidas noutro lugar, outras caras e sorrisos, outros olhos a brilhar. E há explosões. E acordes que se perdem no breu da noite que se avizinha, algures um saxofone que se sobrepõe às notas do piano em surdina.

Há alianças secretas, símbolos, cumplicidades, há na hora incerta, a certeza da verdade. Há sorrisos de crianças, vozes que se misturam, confettis e serpentinas e gatos pretos num muro.  É algo como magia, sentir-te assim ao meu lado, entre colheradas de vida e lufadas de sorvete gelado.

 

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 Letra da música


Musica: Trem das cores-Caetano Veloso
Imagem: OH I MISSED THIS!!!!

Lazy Cat às 23:20
| Ronronar | Ronrons (15) |

Terça-feira, 3 de Junho de 2008
-n-a-d-a-

Nada

E o sol na pele

Um sorriso que me ilumina

Um abraço que me acolhe

 

Nada

E a chuva no cabelo

O teu corpo e o meu

Num infindável novelo

 

Nada

E a noite que se estende

O teu calor na minha cama

O teu braço que me prende

 

Nada

E a vida que recomeça

Das marcas que deixas em mim

Ao silêncio de uma promessa

 

Nada

E daqui nasce tudo

Sem duvidas ou certezas

Sem armas e sem escudo

 

 

Ternura

Pecado que apetece

Pôr-do-sol no fim do mundo

Dia que amanhece

 

Nada

Sol poente e alvorada

 

 

 

 

 

 

Everything - Michael Buble
Musica: Everything-M Buble

Lazy Cat às 22:30
| Ronronar | Ronrons (16) |

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
In your arms

 

Languidamente, como quem acorda devagar, abro os olhos para um mundo novo para explorar. Descubro-o sem pressas, presa ao teu calor, numa ilha deserta, longe do mundo e seu estertor.

Nesta ilha diferente, presa num mundo a girar, escondida dos olhos iníquos, por asas em lento esvoaçar, descubro o tempo lento de saber aproveitar. Descubro em gestos pequenos, a imensidão de um mar.

Na pequenez de cada gesto, de cada brando murmurar, no silêncio de cada palavra, no segredo de cada calar, vislumbro um horizonte perdido, entre mar de noite e céu ao rubro, no infinito de acreditar.  

Languidamente fecho os olhos, como quem se deixa embalar, guardo em mim as memórias deste mundo por encontrar, recolho cada detalhe, cada secreto lugar, para os rever nos teus olhos, em cada novo acordar.

 

 

 

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(Imagem daqui)

 

 

 


Imagem: Safe in your arms-Oliviaartist

Lazy Cat às 11:01
| Ronronar | Ronrons (12) |

Domingo, 11 de Maio de 2008
()

 

 

Entre vales e montanhas, escarpas e praias serenas, entre areia quente nos pés e o ritmo incessante das marés. Por entre árvores e flores que sorriem à Primavera, entre os flocos de neve duma tempestade severa, na água cálida das lagoas, no silêncio profundo dos bosques.

Nos raios ofuscantes do sol de verão, na lua, presença eterna, em cada mudança de estação.  No centro da praça da cidade maior, em cada canto, cada viela, cada longo corredor. Em cada arco-íris e em cada gota de chuva, em cada nuvem ligeira, em todos os ventos do mundo.

Em cada sabor delicado, em cada nota perdida, em cada prato de barro, em cada toalha estendida. Em cada voz que se aquieta, em cada grito rouco e profundo, em cada cama desfeita, em cada palavra secreta, em cada gemido moribundo.

Em qualquer hora da vida, em cada lugar deste mundo, em cada profundo abismo, em cada escondido cume, a minha voz tem o teu nome, o meu cheiro o teu perfume, os teus olhos a minha cor, o teu corpo o meu costume. Fogo, que me molda e consume.

 Letra da música-aqui


Musica: T.Wynette - Stand by your man

Lazy Cat às 23:56
| Ronronar | Ronrons (20) |

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
Feeling.....

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Is This Love - Bob...
Letra da musica : aqui 


Musica: Is this love....Bob Marley

Lazy Cat às 17:51
| Ronronar | Ronrons (8) |

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
?

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És

ponto de interrogação

Um suspiro profundo

Uma porta entreaberta

Entra a vida e o mundo

És 

um sorriso ainda vago

Onda que se enrola na areia

Sol que descobre mistérios

Noite de lua cheia

 

 

Who Are You.mp3
Link da música: aqui
Musica: Who are you
tags:

Lazy Cat às 19:08
| Ronronar | Ronrons (25) |

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008
TAG

 

 

 ...a memoir in 6 words...

 

it seems easy, but there are lots of memories and it isn't easy to say something, that really was important using only six words. Anyway, that's quite an exercise!

 

So....you know....I used to dance all night ...seems to be my better option!

 

*       *            *                *       *               * *        *          *           *     *      *         *                *      *

  *   *        *             *                *             *           **                 *                **           *            *

               *               *                  *                 *                *                     *                  *            *

*  *             *            *    *          *       *      *            *   **        *       **    *         *   *     *   **

 

 

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So now.....it's your turn!

 

Carlos Lopes

 

Redjan

 

Cris

 

V.A.D

 

&

 

   Sophia 

 

 

 

Espero que todos aceitem este pequeno desafio e que aproveitem para

visitar o Resonant Enigma, de onde me chegou o Tag, para ficarem a par das "regras".

 

 *     *     *     *     *

 


Musica: Body Rockers-

Lazy Cat às 17:29
| Ronronar | Ronrons (10) |

Sábado, 29 de Março de 2008
MAGIC

 

  

 

A man’s sitting on the roof,

A cat purring on his lap

His hand gently scratching her head,

While she’s languidly arching her back…

 

 

Ouve a música estelar, de olhos fechados, enquanto a gata ronrona devagar, deitada no seu colo. Com uma mão afaga-lhe o pêlo, perdido em sonhos ao luar, num telhado entre o arvoredo. A lua faz questão de o embalar, enquanto hesita entre render-se e o medo e a gata muda de lugar, como se lhe quisesse contar um segredo. E volta a soprar o vento misterioso, carregado de tudo o que poderia ser, faz do ronronar de gata uma voz rouca de mulher.

 

Brilham estrelas pequeninas num firmamento qualquer, e num telhado escondido, descobrem-se homem e mulher… Passam cometas sorrindo e tudo muda de lugar, voa a chuva em lentos brilhos, vem a neve para os aconchegar, esconde-se o sol entre as nuvens, passa um trenó a tilintar, a lua fecha os olhos, o mar deixa de se agitar, o telhado faz-se cume e na magia de sonhar, homem e mulher são águias, em longos voos de amar…

 

 

A man’s dreaming on a roof,

A cat sitting on his lap

He’s a flying eagle over a mountain,

She gently scratches and nuzzles him back….

 

 


Musica: Call of Magic-Jeremy Soule

Lazy Cat às 23:09
| Ronronar | Ronrons (15) |

Domingo, 23 de Março de 2008
Viagem

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**************************************************

 

Deslizo devagar por vales fumegantes, não tenho pés, não tenho asas, não tenho peso. Ser etéreo de contornos indefinidos, desço na corrente até às cascatas salgadas, Vagueio no ar entre nuvens densas e geladas, provo doces sabores das flores daqui, Mordo sem esforço as frutas dos cumes, aspiro perfumes que nunca antes senti.

Sentada no ponto mais alto observo a vida a passar, correntes de carros, de água, lava incandescente a desaparecer. Vejo o mar revolto e os rios de calma que não se deixam demover de seguir o seu curso, vejo crianças que gritam e pulam, vejo o céu a arder.

Vejo sorrisos em rostos idos, vejo gestos que já esqueci, vejo esperança em rostos escondidos, vejo o tempo que faz de tudo lava, que tudo leva pela frente sem escolher, vejo a noite e a madrugada e o sol que nasce sem se esconder, vejo a lua, iluminada, vejo a Terra a morrer.

Vejo segredos que se guardam em caixas de música, palavras que se deixam de dizer, notas que se soltam de longas melodias, que valem por tudo o que haveria a esconder. Vejo mãos que se perdem e enlaçam, mãos que se prendem e aquecem, esqueço tudo o resto e vejo apenas, mãos que me sabem receber.

Deslizo dos vales fumegantes, todo o meu corpo se encontra em ti, cada contorno do meu ser te procura, se encaixa e reconfigura, perfeita metade de ti. No calor do teu peito reescrevo visitas, guardo memórias, seco lágrimas aflitas, no sabor do teu beijo apago histórias, redefino a vida, reinvento estórias. Viajo no teu corpo ao sabor de mim. Encontro-me, perdida em ti.

 

 

 

 

 

Letra da música aqui


Musica: 2000 Miles-The Pretenders

Lazy Cat às 22:01
| Ronronar | Ronrons (25) |

Sábado, 22 de Março de 2008
Perdi-me

 

 

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Perdi-me na vastidão do alvo manto ao meu redor,

Nas memórias de uma infância ida,

Na candura de sorrisos de quem não despertou ainda

Perdi-me no silêncio do eco das montanhas

Nas mão geladas e nas fogueiras de fraca chama

Perdi-me no gelo que se transorma em prisão

Na neve branca, na sua imensidão.

 

Perdi o tempo a olhar para tras, matei saudades

Como quem se renova uma e outra vez

Como quem se enche de vento e liberdade

Perdi as horas presa aos cumes encobertos

Entre névoa desenhada e ventos adversos

Perdi-me em abraços partilhados ao relento

Promessas feitas num instante, e levadas pelo vento

 

Perdi-me num processo de busca, perdi-me em mim

Perdi a razão e o sentido da luta, até me rever aqui...

 

 


Musica: Books of days
Imagem: Home...

Lazy Cat às 14:24
| Ronronar | Ronrons (16) |

Segunda-feira, 17 de Março de 2008
Tempo

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No tempo do tempo em tempo de lembrança

Vivemos em tempo do tempo que temos

No tempo que temos para tempo de esperança

Perdendo momentos daquilo que vemos

 

Do tempo fazemos apenas mais tempo,

Como o cabelo, desfeitas as tranças

Desfiamos memórias ao ritmo do vento

Voltamos ao tempo de sermos crianças

 

Com tempo para crescer

Em tempo de viver

Sem tempo para tudo ver

No tempo de aprender

 

No tempo para crescer sonhamos

Com tempo de viver sem medos

Tempo para ver o que ganhamos

No tempo de aprender segredos

 

Nos sonhos de crescer vivemos

Em sonhos de viver segredos

No tempo de escutar lembramos

Que há quem guarde os nossos medos

    

Gata e Wolf, algures no tempo.

 

 


Musica: Enya-Tempus Vernum
Imagem: Jean-Paul Avisse-The path of time
tags: , ,

Lazy Cat às 00:29
| Ronronar | Ronrons (12) |

Domingo, 9 de Março de 2008
EU cheiro a...

 

 

 

 

Cheiro a mar, a ondas que se enrolam, cheiro a sol na pele, cheiro a sal. Cheiro a verão, cheiro a entardecer devagar, cheiro a adormecer no teu regaço e aí acordar. Cheiro a beijos, a desejo, cheiro a chá, a limão fresco, a erva verde. Cheiro a pinhal em noites de verão, cheiro a esteva, a especiarias raras, a flores do campo.

 

Cheiro a certeza, cheiro a saber, cheiro a lágrimas e adormecer. Cheiro a morangos, cheiro a maçãs, e a canela e avelãs. Cheiro a calor, a lenha que se desfaz, a brasas crepitantes, a gelado de ananás. Cheiro a cerejas, a costas arranhadas, cheiro a gemidos, a costas arqueadas. Cheiro a sorrisos. Cheiro a risos, cheiro a ti!

 

Cheiro a lábios molhados, a instinto, cheiro a vinho maduro, a sol nas encostas e a ondas de marfim. Cheiro a vento nas velas, cheiro a voar baixinho, cheiro a mãos que te procuram e a dedos que sabem de mim. Cheiro ao cheiro dos amantes, entre sonho e realidade, à soma dos instantes, que fazem de tudo verdade.

 

 

 

 



Lazy Cat às 22:30
| Ronronar | Ronrons (20) |

Quinta-feira, 6 de Março de 2008
::

 

 

 

 

 

 

Acordo no teu beijo,

como quem se inebria de calor,

Acordo em desejo,

sem pressas, em doce torpor,

Acordo presa aos teus lábios,

ao teu cheiro ao teu calor,

Acordo em todos os sentidos,

na boca o teu sabor....

 

 

A que cheiras?

 


Musica: Café Del Mar-Horn, Moments in

Lazy Cat às 22:53
| Ronronar | Ronrons (27) |

Domingo, 2 de Março de 2008

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Em sonhos conheço de cor o teu cheiro, os gestos com que me afagas, sei de cor o teu passo e as mãos com que me agarras. Sei o toque do teu cabelo, sei como se prende aos meus dedos, como os teus lábios me murmuram segredos. Como fazem da minha pele travessia, a deixam envolta em húmida maresia e desencadeiam o ritmo do meu mar, sei de cor o sol que me incendeia quando a tua voz me chama, ainda do fundo de um sonho, ainda do fundo da cama, quando da lua fazes testemunha de jogos e diabruras, quando das estrelas apagas a luz e acendes o sorriso que me desperta e seduz. Sei de cor o aconchego do calor dos teus braços, a cor da tua pele, a distância dos teus espaços, sei de cor o teu sono, e o ritmo que te embala, em sonhos adormeces assim, longe do mundo, abraçado a mim…  

 

… in your dreams, whatever they be
Dream a little dream of me...

 

07-Mamas and the P...

Letra da música aqui

 

 


Musica: Dream a little bit of me-M&P

Lazy Cat às 00:01
| Ronronar | Ronrons (8) |

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008
que farei?

 

 

Que farei nas noites sem ti

Entre lareira e livros

Sem a voz que me aconchega

Que me murmura ao ouvido

 

Que farei nas madrugadas azuis

Coroadas de fios de prata

Sem o teu corpo perto do meu

Que me aquece e completa

 

Que farei quando a noite cai

Trazendo de volta os fantasmas

Sem o teu sorriso sereno

Que me contas histórias de fadas

 

Que farei ao acordar sozinha

Numa cama repleta de sonhos

Sem o teu olhar de bom dia

Promessa de dias risonhos

 

Que farei afinal meio perdida

Entre noites e dias em vão

Sem a presença no meu caminho

Da luz que quebra a escuridão

 

 

Que farei...

 

 

Fiz da voz do fogo companhia

Entre letras e calor

Das palavras murmúrios distantes

De um discreto narrador

 

Das madrugadas frias fiz vento

Que se enrola em tempestade

Parei o relógio do tempo

No limite da minha vontade

 

Dos fantasmas fiz quadros de giz

Onde escrevo contos de arrepiar

Que acabam sempre em feliz

Bastando apenas acreditar

 

Do acordar fiz um longo ritual

De sonhar abrindo os olhos

Desenhando sorrisos em caras

Em resmas escritas de sonhos

 

Da luz negra fiz companhia

Para me embalar o sono

Passeio na luz das estrelas

Entre aconchego e abandono. 

 



Lazy Cat às 22:19
| Ronronar | Ronrons (11) |

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
...

 

 

A.Decker Moon

 

 

 

Do negro feitiço do tempo

Quebras a monotonia,

Brilhando em mim por momentos

Trazendo à noite magia.

 

De longos dedos alados

Vestes a noite de brilhos,

De sorrisos desenhados

Em rostos agora tranquilos

 

Embalas sonhos perdidos

Em sonos de acreditar

Sedutora feiticeira,

No meu telhado a brilhar

 

 

 

Esta imagem foi roubada aqui

 


Musica: Moonlight sonata
Imagem: A.Decker Moon
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Lazy Cat às 18:15
| Ronronar | Ronrons (14) |

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
Ao fim da noite

Ao fim da noite desdobro-me, sou feiticeira e feitiço alado, sou vento que corre leve, no teu peito aconchegado. Ao fim da noite recomeço, com novas artes e magia, sou apenas um pássaro, breve cotovia. Ao fim da noite perco o rumo, deixo o tempo adormecer, sou um fantasma alado, que sabes reconhecer. Ao fim da noite sou piano, cujas notas ouves ao luar, sou melodia eterna, em berço de embalar. Ao fim da noite sou poema, em rimas de inventar, sou anátema em eterno desvendar. Ao fim da noite sou cigana, folhos e luzes de bailar, sou apenas uma sombra de velas a bruxulear. Ao fim da noite sou sereia, em mares de naufragar, sou corrida de estrelas em suspensão no ar. Ao fim da noite sou silêncio, verso e abraçar, ao fim da noite sou segredo, que não sabes encontrar.

 

Ao fim da noite na praia, sou maré em eterno vazar, sou concha vazia e dispersa entre grãos a vaguear. Ao fim da noite na água, sou alga a flutuar, presa ao destino incerto de uma onda a rebentar. Ao fim da noite da ilha, apenas vejo brilhar a candeia que manténs acesa, para te saber procurar. Ao fim da noite sou sacerdotisa do amor que comparte a tua vida, a destrói e suaviza e te faz sentir maior. Ao fim da noite nas trevas, sou borboleta a esvoaçar, queima as asas mas repete, crê que a luz a vai saciar. Ao fim da noite sou infinito espraiado no teu corpo, sou carícia, sou riso, sou gemido rouco. Ao fim da noite sou sonho, palavras de cheiro risonho, versos de recomeçar. Ao fim da noite sou ponte, passadiço por levantar, ao fim da noite sou praia, adormecida ao luar.   

   

    

    

     

     

     

 

 

 

 

 

 

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Esta imagem foi roubada aqui

 

 


Musica: Sitting on the Dock of the Bay
Imagem: Roubada....

Lazy Cat às 22:13
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
E* n*o t* a*o

 

 

 

Não, não te amei vagamente como quem não se lembra bem de quê.

 

 

 

 

Com cada poro da pele

Com cada célula de mim

Não te amei calmamente

Mas amei-te, isso sim

 

Com cada sorriso rasgado

Com cada perguntar porquê

Não te amei simplesmente

Foste um acto de fé

 

Com cada gesto contido

Com cada gesto que fiz

Amei-te, amante, amigo

E tudo o que nem se diz

 

Com cada lágrima amarga

Com cada perder o norte

Amei-te como o vento

Tão impotente, e tão forte

 

Com cada letra fustigada

Com cada grito mudo

Amei-te, história roubada

Princípio e fim de tudo

 

Com cada verdade dita

Com cada mentira calada

Não te amei noite dentro

Foi sempre de madrugada

 

Com cada passo inseguro

Com cada corrida alada

Fiz de ti o meu mundo

Foste tudo e eras nada

 

 

 

 

Não, não te amei facilmente, mas amei-te. Possivelmente.

 

 

 

Letra da música aqui

 


Musica: Naturaleza Muerta*Mecano
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Lazy Cat às 21:58
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008
Luz Violeta

 

 

 

 

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- Nããããoo!

 

O grito ecoou pelo prédio inteiro, enquanto Manuel acordava de um sonho, coberto de suor e se sentava sem saber bem como na cama.

 

Acenderam-se luzes nos quartos dos apartamentos vizinhos, perguntou-se baixinho o que seria, olhando ainda estremunhados os casais um para o outro, sentindo o coração bater cada vez mais depressa e disparar, cavalgar loucamente pelas estradas do medo.

 

- Que foi isto? Quem gritou assim? Perguntou Manuela ao marido. – Que terá acontecido?

 

Manuel encostou-se às almofadas, respirando com dificuldade. Escorria-lhe suor pela cara abaixo, o pijama estava encharcado. As mãos tremiam-lhe se que as pudesse parar e as lágrimas misturadas com o suor salgado faziam-no parecer um espectro, sem cor e de olhos alucinados. Apertou os joelhos com os braços, tremendo sem parar, gemendo algo ininteligível, murmurando torturas com o olhar. Procurou a parede, a janela, e ver para além dela, a luz pálida do luar. Estava branca, a lua.

 

Não tinha noção do tamanho do grito nem da onda de terror que provocara. Não sabia que nas casas vizinhas havia ainda luzes por apagar, mulheres que se encostavam aos maridos, a cabeça a latejar, presas ao horror do grito que as fizera acordar. Havia gente sozinha, de luzes acesas a tentar esquecer, a tentar fechar os olhos e adormecer. Porque sempre se adormece sozinho, por mais gente que se tenha ao lado, o caminho do sono é solitário, assim como o da morte ou o da vida.

 

Alguns reviveram medos de infância, que pensavam ter ultrapassado, outros ficaram de olhos abertos, na esperança de perceber, pelos ruídos do prédio, o que podia ter-se passado. Mas Manuel mantinha-se imóvel, olhos postos na lua, branca, branca e fria. Afinal só tinha sonhado, era a sua casa, a sua cama, o seu mundo e ainda vivia. Aos poucos o corpo foi-lhe obedecendo e voltou a prender os fios de pensamento, a dirigi-los em vez de se deixar levar por eles.

 

Este sonho repetitivo e insistente havia meses que lhe tirava o sono. Tirara-lhe a Sónia, tirara-lhe os filhos. Apenas lhe restava os comprimidos pequenos que o faziam cair num sono pesado. E não o impediam de sonhar. Ao longo dos meses construíra o puzzle, tinha sonhado cada fragmento, cada imagem, cada desenvolver de horror, sempre o fim.

Mas nunca tinha sonhado o princípio antes de hoje, e por isso gritara assim. Por isso o frio lhe gelava o corpo e a alma, por isso tremia sem fim.

 

Tanto quanto se conseguia lembrar, não havia relatos de terramotos neste país. Apesar de ter pesquisado, quando os sonhos o visitavam em noites distantes entre si, antes de perder a capacidade de raciocinar, não havia conhecimento de nada que pudesse fazer o mundo acabar assim. Convencera-se que o sonho era uma analogia, que retratava a sua vida e não a do mundo, e que, mais dia menos dia, sonharia o seu próprio fim.

 

Agarrou nos seus pequenos companheiros de viagem, agora que tinha sonhado o principio, talvez tivesse chegado o fim, e pudesse acordar de novo, para uma vida sem pesadelos insistentes, para um dia-a-dia comum, banal e rotineiro, que lhe parecia agora de todos, o destino mais desejado. Reviu a luz violácea que o fizer gritar, estremeceu.

Um copo de água, tomou os comprimidos, fechou os olhos e adormeceu.

 

 

Aos poucos foram sossegando as casas vizinhas, o escuro foi disfarçando as janelas. Levantou-se um burburinho lá fora. Uma onda de sons desconhecidos e inquietantes encheu o ar e todo o espaço, mas Manuel dormia sem sonhos, pela primeira vez em muito tempo, para ele nada disto aconteceu. E num clarão violeta gelado, perante os olhos dos satélites imediatamente obsoletos, o mundo inteiro desapareceu.

 

 

 

 

 

 

 


Musica: Black * Pearl Jam
Imagem: www.visualstatistics.net
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Lazy Cat às 22:00
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008
Lazy Cat

 

 

 

Lazy cat on a roof found a piece of cheese

Drank a drop of water, yelled the sky cheers

 

Lazy cat on the street found a piece of gold

What she bought with, is a secret never told

 

Lazy cat on a cloud, travelled far away,

Slept with the wind, came back with the day

 

Lazy cat on her roof, found out a new cushion

Made very simply of … never ending passion!

 

 

  

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Musica: Pink Panther
Imagem: ruisousaartworks.blogspot.com
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Lazy Cat às 01:09
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
Dá-me a mão...

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Dá-me a mão, apenas por um momento,

Deixa que o tempo passe e se faça lento

Deixa que me encoste ao teu calor

Dá-me apenas mais uns minutos de amor

 

A vida lá fora corre veloz

Feita de dor e sofrimento atroz

Abraça-me e deixa-me adormecer

Fechar os olhos e tentar esquecer

 

Dá-me a mão, apenas por um segundo

Deixa que o tempo apague este mundo

Deixa que me afogue em ti

Dá-me força para superar o que vi

 

A vida lá fora não pára quieta

Fez do fim do mundo uma meta

Aconchega-me e deixa-me sonhar

Criar um mundo às cores e brincar

 

Dá-me a tua mão, apenas para sempre

Deixa a porta aberta e que o sol entre

Deixa que a vida seja feita assim

De ternura que te dou e me dás a mim

 

A vida lá fora, cegamente avança

Destrói sem pensar as nossas crianças

Abraça-me e não me deixes ir

Antes que saiba de novo sorrir

 

Dá-me a mão, apenas…para sempre.

 

                                                          

 

NÃO ME MINTAS - Ru...
Letra da música aqui.


Musica: Não me mintas-Rui Veloso
Imagem: Le Petit Prince
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Lazy Cat às 02:46
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
Abraça-me

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Abraça-me como o vento de verão se enrola,

Aquecendo cada recanto da alma, sorrindo com calma

Abraça-me e embala o meu sono

Herói incontestado de sonhos sem dono

Abraça-me nas noites frias em letras de fogo

Num entretecer de silêncios em diálogo

Abraça-me sem pedir troco,

Dando infinitos de ternura que sabem a pouco

 

 

Abraça-me, sol de fim do dia

Criando suspiros, mestre de magia

Abraça-me quando a noite escurece,

Quando o tempo se apaga e tudo arrefece

Abraça-me respirando devagar

A mão no meu cabelo, o peito a ofegar

Abraça-me e afaga a minha vida,

Faz dela uma teia frágil e colorida

Onde se tecem fios longos de amar.

 

 

Abraça-me na despedida, quando a lua se volta a deitar

Preso ao fio de regresso, que fiamos de noite ao luar

Abraça-me nas águas revoltas de um rio por conquistar

Entre salpicos e ramos que atrasam o chegar

Abraça-me a fogo lento, ao serão, devagar

Com torrradas e chá quente a fumegar

Abraça-me na distância, que me permite sonhar

E fazer deste abraço, o único em que quero acordar.

   


Musica: Chico Buarque-Valsinha
Imagem: "Abrazo" de Nils Vera
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Lazy Cat às 18:00
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2008
L.

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A velocidade a que o carro engolia a estrada reflectia claramente aquela a que os seus pensamentos se perdiam. Entre cada sacudir de cabeça e tentar afastar o sorriso que lhe pairava diante dos olhos, o carro enchia-se do cheiro dela e todos os seus sentidos, por mais que o quisesse evitar, gritavam o nome dela como ele nunca soubera gritar.

 

Naquela tarde o destino decidira juntá-los, encontraram-se numa passadeira, por acaso. Ela a pé, ele de carro. Ela de regresso a casa, ele a caminho de uma reunião importante, e já atrasado. Por pouco não a atropelava….de cada vez que pensava nisto o seu coração dava um salto. Ela, sorridente e bela, de cabelo solto em cachos, o pé distraidamente fora do passeio, ele, furioso e apressado, quase nem viu o semáforo avariado.

 

- Luísa?!

 

Voltou a olhar. Com certeza o seu cérebro lhe pregava partidas, por estar na cidade dela, só isso. Mas não, era ela sim. De olhar fixo nele, como um alfinete ou uma flecha, feito de mil perguntas e outras tantas promessas. Saiu do carro, sem pensar na fila que lentamente se formava, sem ouvir buzinar, sem ver nada além dela. E prendeu-a carinhosa e demoradamente nos braços, enterrando a cara no seu cabelo, aspirou o cheiro dela, afogou saudades sem apelo.

 

Ela não pronunciou uma palavra, muda de espanto e temor, receosa que agora que o via, todas as suas boas intenções valessem menos que nada.  Mas deu-lhe a mão, e sentou-se no carro, ainda que sem saber bem porquê, sem querer ter certezas de nada. Ele falou, disse ao que vinha, mas que estava muito atrasado, a reunião seria adiada. Ofereceu-lhe um gelado, apesar da fria tarde de Inverno, ela aceitou, calada.

 

Na esplanada frente ao mar, avistavam gaivotas. Num vai e vem constante, numa azáfama permanente de quem vive desocupada. O primeiro beijo foi trocado assim, de caras viradas ao sol, numa esplanada, numa tarde roubada à vida. E as bocas não mais se largaram, dizendo tudo o que escondiam em palavras. E as mãos, entrelaçadas, fizeram juras secretas, aninharam-se uma na outra, e assim ficaram.

 

Mas chegou a hora de fechar a porta, voltar ao carro, rumar a casa, a dela já ao virar da esquina, a dele, tão afastada. Estacionado à beira da praia, beijou-a como quem bebe vida, prendeu-a como quem prende a saudade, como quem abre de novo uma ferida. E deixou-a à porta de casa, de cabelo solto a dançar ao vento, olhos marejados e no entanto, nem um olhar para trás no derradeiro momento.

 

Agarrou nas chaves e despediu-se com um beijo leve. Desceu as escadas, café e jornal, o bom dia de sempre, o pedido habitual, as conversas dos vizinhos, numa manhã normal. Entrou no carro e foi invadido pelo cheiro dela e pela certeza que nunca, por mais que o tempo e a distância pudessem fazer, ele iria esquecer o amor daquela mulher….

 

 

Letra da música aqui.

 

Le Geant De Papier...

Musica: Géant de Papier * J.J. Lafont

Lazy Cat às 13:26
| Ronronar | Ronrons (18) |

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
;-)

 

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Na loucura dos dias que nos fogem entre os dedos

É em ti que procuro aconchego.

Nas frias madrugadas em que o vento sopra raivoso

É em ti que me encontro de novo

Nas noites em claro, nas tardes de grande escuridão

É em ti que procuro carinho e atenção

Na incerteza da vida que corre mesmo sem direcção

É em ti que procuro protecção

 

 

Na loucura dos tempos que escondem em segredos

É em mim que saras a alma de medos

Nas noites passadas em claro e de olhos abertos

É no meu olhar que sabes estar certo

Nas manhãs preguiçosas ao sol doce de Inverno

É de mim que procuras um abraço terno

Na incerteza que por vezes te atrapalha e ata as mãos

É no mapa de mim que lês a direcção.

 

Fio, nó, laço.

Desafio e abraço.

 

 

 

 



Lazy Cat às 18:38
| Ronronar | Ronrons (10) |

Existem dias assim

 

Porque é tão mais fácil deixar-se cair, porque nos atrai e não lhe queremos resistir porque depois de tocar no fundo não se pode descer mais e não há batalhas lutas ou guerras que nos façam procurar cais. Porque no fundo o abismo é reconfortante, como uma doce loucura que nos embala, que nos abraça e aperta e nos enlaça em memórias de certeza incerta e em ritmos de melancolia, a que o tempo lá fora responde e se alia. 

 

Existem dias assim, em crescendo no tempo, que nos fazem sentir insignificantes e pequenos em face de nós próprios, em que nos julgamos sem atenuantes e nos condenamos sem dó. E assim ocupamos todos os lugares vazios com fragmentos de histórias, de memórias, com restos de fotografias, tiradas a um futuro sonhado a cores que se fundem, e se transformam agora em imagens que confundem.

 

E nesta profunda desordem, fechamos a porta, para que não se veja que a vida vai torta, que o sol já não chega para secar os estragos e aquecer vontades e vivemos dias sem fim com demasiadas horas para o que sobra de nós e apenas querendo chegar ao fim, daquele hora, daquele dia, daquele lugar e daquela história. Fechar os olhos e adormecer. Deixar de saber. Deixar de querer e de recordar. Evitar sonhar.

 

E repousamos, no fundo desse abismo infinito, entre dias que passam e  vozes que gritam. E nestes dias em que nos pedem e roubam muito mais do que temos em nós, voltamos a sentir-nos vazios e sós. Vazios. Sentir. Voltamos a sentir. Primeiro um raio de sol. Depois as gotas de chuva. Entre vagas repetidas e correntes de espinhos, voltamos ao caminho. A uma mão que se estende, nos aperta e nos puxa, nos senta no alpendre, de cara para a vida, como um filme que passa, numa tela longínqua, desfocada, mas brilhante e convidativa…e estamos a um passo.

 

A um passo de viver ou deixar-nos levar pela vida.

 


Musica: Tchaikovsky

Lazy Cat às 00:01
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
Nelle tue mani

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Ainda não se viam luzes na cidade, as sombras da noite apagavam-lhe o caminho.

 

Mário seguia a ritmo certo, a passo lento e balançado. Afastava-se dos obstáculos com graça e cuidado. O armazém ficava longe, num bosque isolado, entre a única estrada alcatroada e as margens do lago, agora gelado. Abriu as portas e aspirou o ar daquele ginásio. Era naquela sala que trabalhava, incansavelmente, sem horas, sem pausas, sem dias. Era nesta sala e hoje, que a sua vida mudaria. Mas isso, ele ainda não sabia.

 

- Mário, pára um pouco, chega cá abaixo. Mário!

 

Vincenzo, pai de Mário, tinha já perto de 70 anos. Nem uma ruga. A pele clara, os olhos azuis e brilhantes, passos lentos e firmes de gato.

 

- Desce, trago-te uma visita!

 

Mário libertou-se das correias de segurança, prendeu os trapézios, desceu devagar.

 

Abraçou o pai ternamente, perguntado como estava, sentindo de novo um enorme carinho por este homem que tanto admirava.

 

- Mário, sei que treinas sem descanso, rigorosamente. Também sei que, treinar sem parceiro não é treinar, É fazer uso de força, gastar tempo, transpirar. Não sei se chego a tempo, filho, não sei se o Marco irá prestar, mas, por favor, antes de dizer que não, deixa o miúdo experimentar.

 

Encarou altivamente os olhos azuis, não queria treinar um novo parceiro. Não queria mais horas perdidas, mais entorses, lágrimas, mais recriminações e despedidas. A época estava a começar, o espectáculo alinhado para um só…

 

Não foi capaz de dizer que não. No ar está-se sempre só, em voos de longo curso, de brilhos e exclamações de receio, não há rede mais segura que a mão dum parceiro.

 

- Não lhe dou sequer dois dias. Mas pode ficar.

 

- Marco! Entra Marco! Vem conhecer o Mário.

 

Entrou um Marco tímido, de cabeça baixa, escondido entre negros cabelos encaracolados. Levantou os olhos devagar e….rufaram tambores em qualquer lado, sentaram-se orquestras na sala, invadiram a floresta músicos alados.

 

E um Mário de garganta seca e olhar turvado, estendeu a mão a Marco, que a apertou com cuidado.

 

Não se desprendiam olhares, não se ouvia um som e Vincenzo saiu devagar, um sorriso nos olhos e uma prece nos lábios.

 

 

Passaram algumas semanas e a estreia estava próxima, o circo montado de cores garridas, os altifalantes anunciando horários e sessões. As roulottes formavam um círculo, nesse centro juntavam-se à noite em conversas, jogos e treinos, trocavam conhecimentos e apuravam truques. A trupe era completamente nómada, não era um circo que fizesse largas temporadas em cada lugar, alguns artistas também actuavam noutros espectáculos conjugando interesses mútuos. Mário e Marco já voavam nos trapézios em sintonia, Marco caíra algumas vezes e magoara-se mas nunca desistira o que fez com que Mário o respeitasse cada vez mais, o sorriso foi-se abrindo e a empatia necessária surgiu, soubera pouco depois que Francesca era irmã de Marco, Vincenzo contactara-a para ser apresentadora do espectáculo, era bela e jovem mas não gostava muito de palavras.

 

A noite de estreia chegara, brilhos de cor, foguetes no ar, rebuliço imenso tudo a preparar sem tempo, os ilusionistas de negro em contraste com a assistente de púrpura os verdes e azuis dos lenços, os palhaços divertidos ainda sem nariz vermelho, os acrobatas que ponderavam a sincronia perfeita uma última vez, o Chapiteau azul e verde com cadeiras vermelhas montado pelos equilibristas já vestidos de cores ofuscantes para serem vistos ao pormenor de baixo.

 

Na noite anterior os trapézios tinham sido verificados, a segurança era algo que Vincenzo não descurava, de manhã tinha voltado a pedir para verificarem as cordas, os arames, a rede que. Mário dera indicações para a rede não ser usada e isso ser anunciado apenas quando os dois subissem aos trapézios.

 

Andreza a equilibrista que mais arriscava no arame ficou surpresa com o que acontecia na escuridão, cá em baixo a plateia só veria as faixas fluorescentes do fato dela e o arame também fluorescente, seria algo fascinante, só agora a observar o efeito no escuro percebia como resultava. A hora aproximava-se, Vincenzo como anfitrião reuniu todos desejou-lhes um bom show, dirigiu-se para a entrada querendo certificar-se que a entrada decorria em ordem. Marco chegaria a quinze minutos de actuar, Vincenzo pedira-lhe um favor que não poderia confiar a mais ninguém, sentia-se velho e cansado, essa seria a noite do filho. Decorreu tudo como previsto, os acrobatas, os palhaços, os ilusionistas, os equilibristas, alguns outros participantes pontuais que cada sessão de circo era sempre diferente no Chapiteau, chegara a hora esperada há meses por Mário, Vicenzo estava nervoso e discutia com o filho – Marco não tinha ainda chegado – não queria dizer o real motivo da demora e Mário insistia em subir para o trapézio sozinho, Vincenzo enerva-se ao ver Mário fazer o número sozinho, nada estava a ser como ele tanto fantasiara. Mário voou num perfeccionismo indescrítivel, aclamado pelo público que vibrava,o pai sentia-se orgulhoso mas começara a pressentir que algo não estava bem. O número de Mário e Marco era o último, o circo nessa noite deveria acabar com Vincenzo entregando nas mãos de Mário o Chapiteau, e a possibilidade de ter sucesso e ganhar prestígio nesta temporada que agora começara.

 

Vincenzo acabara de receber uma chamada de Marco, este contara-lhe que não voltava e que o dinheiro que tinha levado para fechar negócio com o mais cobiçado trapezista também não voltaria nem seria entregue. Todos os contactos com Alberti – o trapezista – tinham sido forjados por Marco e um cúmplice. Vincenzo perguntou-lhe o porquê da traição quando ele e Mário tanto o ajudaram, Marco sabia que não existiriam receitas para garantir o circo sem aquele artista e sem aquele dinheiro mas limitou-se a responder a Vincenzo:

 

 - A vida é um circo. Quem alto voa, sempre cai.

 

Gata & Ki, algures, num tempo qualquer.

 



Lazy Cat às 00:52
| Ronronar | Ronrons (6) |

Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
  Carnaval

 

 

mask

 

 

Dispo, perante ti,

cada retalho do meu fato de vida,

Cada enfeite, cada laço, cada fita.

Espalham-se lantejoulas,

caem serpentinas…

Desfaço a ilusão,

perco as cores e o brilho,

Cai a minha máscara citadina.

 

Descubro para ti,

recantos de mágicos silêncios

E sons únicos,

que nascem dos teus dedos.

Desabotoo o abrigo pesado

que me esconde dos dias

E sou eu, apenas, sem segredos.

 

Do toque suave com que me encantas,

qual feitiçaria

Nascem as cores com que vês,

a luz que me guia.

Caído o disfarce,

é o meu corpo que brilha,

O teu sorriso que me aquece,

A tua alma que me envolve,

a minha que te reconhece…

 

 

Entre um sol que brilha e um dia que anoitece

Entre fitas de serpentinas e chuvas de confetti

Somos…e a vida acontece.

 

 

 

 

 

 


Musica: Ronda di Stelle-Rondo Venezian

Lazy Cat às 00:21
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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
♂♀

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Um dia encostar a cabeça no teu peito, já não vai ser um gesto de amor, será apenas mais uma rotina, um gesto habitual, que aceitarás, ausente, preso a outras frases e a outras cores, mesmo se fisicamente presente. A tua mão já não me afagará o cabelo em ritmo lento, apenas ficará pousada, inerte, peso leve numa cabeça alheada.

 

Um dia o meu sorriso, já não será tão contente, será apenas um reflexo, condicionado pela tua chegada. Já não haverá despertares a meio da madrugada, tudo terá horas, e o dia-a-dia será uma longa sequência regrada. Os meus olhos já não brilharão no teu sorriso, viveremos apenas em função de termos assumido um compromisso.

 

 

Será, meu querido? Que o tempo nos vai vencer, transformar o que a quatro mãos soubemos encaminhar e deixar crescer? Será que vamos viver apenas no mesmo espaço, compartilhando tarefas e um ocasional abraço? Será que afinal nas nossas mãos não vai haver mais forças, não vai haver mais notas, não vai haver mais versos e vamos passar o dia absortos, perdidos entre o que há para fazer e tudo o que está atrasado, perdendo o sentido e o sabor de um abraço de amor, de um aconchego procurado?

 

Que será de nós se chegar esse dia? Onde voarão os teus pensamentos, que bailará na minha cabeça vazia? Como faremos face às agruras, às tristezas de uma casa cheia e no entanto vazia? Que faremos do tempo dos nossos dias? Que mãos vão acarinhar as nossas, que braços nos vão confortar? Quem nos dirá baixinho, que até o que é mau tem que acabar? Como se conjuga o verbo conformar? Será que o tempo nos acaba? Será que a vida nos ataca e nos rouba o saber sonhar? Como se esquece o prazer de amar?

 

Hoje a minha mente viaja, procura respostas para perguntas hipoteticamente futuras, mas é teu o braço que embala a viagem, teus os olhos que procuro ver. Hoje sei o que quero ter, passados anos e anos ao teu lado, sei como te quero acordar, como quero amar um rosto já enrugado. Sei como quero que seja ter-te sempre ao meu lado. Hoje tenho a força de te amar, a força do amor com que me prendes e dás asas, hoje tenho tempo a perder, com perguntas inúteis e respostas complicadas.

 

 

Um dia já fomos amantes vorazes, já fomos cão e gata  de garras afiadas, já fomos vozes que gritam mentiras, olhos que escondem verdades. Um dia já fomos amigos, em longas conversas prolongadas, também fomos inimigos, de arma em punho, ainda que travada. Um dia já fomos mistério, floresta virgem, lentamente explorada, um dia fomos vizinhos, na mesma casa, de cara fechada.

 

Um dia já fomos ternura, já fomos mão que conforta e acalma, um dia já fomos de tudo, sol poente e fria alvorada. Um dia já fomos capazes, de nos render sem condições, ao amor que nos une sem limites, ao ritmo do bater dos corações. Um dia já fomos mão na mão, sem medo de nada. Agora somos assim, um só ser, uma só alma, uma só vida para ser contada.

 

 

 

 

 

 

 


Musica: Eternal Flame * Bangles
Imagem: Abrazo

Lazy Cat às 20:30
| Ronronar | Ronrons (5) |

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
GOSTO DE TI

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Hoje apetece-me um sorriso
Como a princesa das histórias
Adormecer no calor impreciso
Um abraço que sabe a memórias

Acordar entre o teu cheiro

E o sabor do teu carinho

Deixar-te com um beijo

Retomar a vida, em desatino

 

Fazer das horas lenta promessa

De um regresso ao teu lado

Fazer do caminho sem pressa

Prazer de um regresso esperado

 

Hoje apetece-me assim

Dizer-te que te quero tanto

Que fiz dos teus olhos destino

Entre alegria, emoção e espanto

 

Ainda que passem e diluam sentires

As horas longas de tempos a vir

Estarás ao meu lado, estarei contigo

Em momentos que soubemos construir.

 

Hoje

apetece-me assim

dizer que

gosto

de

ti.

 

 


Musica: Aceitam-se propostas.... ;-)

Lazy Cat às 18:00
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
ruInas

 

 

Ruíram os muros, deixando ver carcaças de edifícios esventrados. Alamedas que já tinham sido, bordadas de esqueletos de árvores petrificadas. Por todo o lado destruição. Casas feitas apenas de fachadas, paredes carcomidas e janelas a custo imaginadas. Cinzas pesadas e escuras cobrem tudo o que a vista alcança, aqui e ali vestígios de partes de um brinquedo de criança.

 

Nesta terra de ninguém feita de fuligem e pedra, a hera deixou de se agarrar às paredes para se fundir nela, a luz deixou de ter brilho, paira levemente baça, e apenas se sente no ar ausência e vazio, como uma espada que nos trespassa. Não há sons, a vida partiu para outras paragens, o que dela restava, farrapos envoltos em fantasmas. Resta no meio do outrora parque, brilhante e singela, uma flor, insultantemente bela!

 

 

 

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Musica: Chaos Engine

Lazy Cat às 22:00
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Domingo, 27 de Janeiro de 2008
Estranha forma de Amar

 

 

 

O amor e a vida tinham ficado na casa velha. Amontoava coisas na casa nova. Hoje a máquina de lavar, amanhã o aspirador. Não havia molduras nem fotografias. Nem quadros nas paredes. No escritório um semblante de vida, entre papéis e computador.

 

A cama continuava desfeita apenas de um lado, e era o de sempre. Não tocava no dela. Para jantar havia sempre companhia. Um amigo, algum colega. Para dormir, era preciso que o cansaço o vencesse e a cama lhe soubesse melhor que outra sorte.

 

Não a encontrava naquele espaço, mas de certa forma ela não se ia

embora. Nada que fosse dela tinha vindo para ali, mas o cheio dela

parecia pairar no ar, à porta. Quem sabe à espera de um convite para entrar….

 

Sacudia os ombros ao rodar a chave, e deixava o cheiro na rua, pondo mãos à obra, numa vida que agora era só sua. Reencontrou o tempo de ler. O tempo de ouvir. Redescobriu um prazer antigo, que lhe permitiu renascer.

 

Fez da vida que tinha uma página conhecida, a não reler.

 

Ela ficou na casa antiga, povoada de memórias e fantasmas. Encontrando a cada passo o cheiro de alguém que amava. Numa estatueta uma ilha, num quadro um olhar, num livro esquecido, ou deixado ao acaso, um história de vida a lamentar.

 

Fez do mau tempo companheiro, da melancolia aliada, fechou portas e janelas e manteve a luz apagada. Apenas saia à tardinha, sempre bem apresentada, subias as escadas e ficava ali, à porta, a sonhar que um dia também entrava.

 

Via-o chegar todos os dias, de mão na boca, para se manter calada, não fosse ele algum dia, trazer namorada. Não tinha horas, por vezes a espera era longa. Mas nunca desistiu de o ver chegar. E só saia depois da última luz da casa se apagar.

 

E retomava o ritual, a cada dia, a cada semana, fazendo uso na casa que tinha apenas da cama, onde todas as noites procurava um abraço conhecido, e apenas lençóis e vazio encontrava. Embrenhou-se numa vida que já fora. E deixou de viver.

 

Fez, da vida que tivera um dia, a única digna de se viver….

                                                        

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Musica: Alanis Morissette-Not as we

Lazy Cat às 17:35
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
Leitor de brincadeiras

 

 

pup tired

 

 

 

Chegaram ao mesmo tempo. Eles na brincadeira, com o cão e as bolas, ele com um livro debaixo do braço. Àquela hora o sol ainda fazia franzir os olhos, ele procurou um banco abrigado, eles um pedaço de relva à sombra.

 

Deixaram as mochilas encostadas a uma árvore, tiraram a trela ao cão. Ele de livro entreaberto nas mãos, hesitava entre contemplar o singelo espectáculo ou embrenhar-se na leitura. Ficou assim, sentado, o livro preso entre os dedos, absorto na contemplação das brincadeiras da criança com a mãe e o cão.

 

Cansada de saltos e correrias, a mãe sentou-se, de costas para ele, encostada a um tronco rugoso. As pernas dobradas entre os braços, parecia observar atentamente as palhaçadas. O pequeno aproximou-se, o cão sempre no encalço.

 

- Boa tarde, minha senhora.

- Boa tarde menino. Precisas de alguma coisa?

- Sim, por acaso até preciso. Sabe dizer-me se podemos nadar no lago?

- Nadar no lago? Não me parece. Mas porquê?

- Queria que o meu cão se refrescasse, e também, molhar os pés.

 

Ele sorria, perante a seriedade do diálogo, entre um pequeno de cinco ou seis anos, muito compenetrado, escondendo o ar de reguila com modos afectados.

 

- Nadar no lago não podes. Mas tens um camaroeiro?

- Não…. Disse o pequeno desapontado

- E tens dinheiro?

- Tenho uma moeda. Porquê?

- Porque se a tua moeda me agradar, vendo-te um camaroeiro e ensino-te a pescar.

- No lago?

- Não, no riacho. Do outro lado da ponte.

 

O miúdo olhou para a ponte de madeira. Do lado de lá brilhava um risco de água fresca, que alimentava o lago do lado de cá. Tirou prontamente a moeda do bolso, resistindo às investidas do cão que pensava sem dúvida tratar-se de qualquer guloseima.

 

- Só tenho esta moeda. Se calhar não chega….

- Essa? Claro que chega, e ainda te dou troco.

 

Tirou da mochila um camaroeiro pequeno e devolveu a moeda ao rapazito.

 

- Agora vou ensinar-te como se faz. Primeiro, descalçam-se os sapatos e as meias.

- Vamos pescar descalços?

- Claro! E de calças arregaçadas! Que diria a tua mãe se chegasses  a casa

com os sapatos encharcados e as calças todas molhadas?!

- Pois… sorriu

 

Descalçaram-se, arrumaram os sapatos e de mãos dadas, seguiram para o riacho. E ele deixou de os ouvir. Ela mostrou-lhe como se apanhavam girinos, e se guardavam num saco, ele tentava em vão que o cão não lhe afugentasse as presas. Com alguma ajuda, encontrou o truque perfeito. Atirar um pão ao cão, que enquanto ia e vinha, o deixava pescar em paz. Depois de ensinada a lição, ela saiu da água e veio na sua direcção.

 

- Já leu o livro todo, ou o livro não presta? Ou somos nós que o desconcentramos?

 

Isto perguntado assim de uma tirada, enquanto devagar desenrolava as calças. Ele soltou uma gargalhada.

 

- Não, por acaso não li. Mas tenciono acabá-lo.

- A este ritmo vai demorar vida e meia!

- Costumo ler mais depressa, quando não aparece quem me distraia.

- Um bom livro absorve-nos, como a terra bebe a água. Não há nada que nos tire de lá.

- Talvez por isso o tenha mantido fechado…

 

- Mãe! O Max comeu a minha pescaria e molhou-me todo!

- Realmente! Estão os dois muito engraçados. Anda, calça os sapatos,

e vamos para casa tomar banho.

 

Entre protestos e salpicos o petiz e o cão lá se prepararam.

 

- Já? Perguntou ele algo desapontado.

- Já, o dever chama. Até amanhã, leitor de brincadeiras.

 

 

 

Deixe o livro em casa e traga umas calças velhas!

 

E desapareceram, de mãos dadas, a cantar uma canção qualquer, de tubarões e baleias.

 

Ele fechou o livro e ficou sentado. A olhar para o riacho, que mansamente entra no lago.

 

 

 

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Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

[...]

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou em mim

Conheço-me e não sou eu.

 

Fernando Pessoa

***

 


         

 

 

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Disfarça em cada olhar

Quanto aprecia um carinho

Em cada passo altivo

Nunca assume que quer mimo

 

Enrosca-se dengosamente

Como se fosse favor

Deixar que lhe façam festas

Ou que lhe falem de amor

 

Ronrona para não miar

De como lhe sabe bem

Um colo, um abraço

Sabendo a sorte que tem

 

De sorriso misterioso

Mostra as garras à invasão

Assanha-se, presunçoso

Não suporta ouvir um não

 

Ainda que cativado

Um dia pode partir

Na memória cada traço

De tudo o que o fez sorrir

 

Sempre querendo mais mundo

nunca se satisfaz

e de um momento profundo

faz do prazer sua paz

 

Os olhos fecha atrevido

Nunca mostrando o que sente

Adivinha o que digo

Gato tem alma de gente

By Ki in Trampolim

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