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Casamento Árabe

por Lazy Cat, em 08.10.07

Fechou a porta e sentou-se, encostada a ela, como se tivesse acabado de cair dum sonho e aterrado na sua vida de novo. Puxou a mala, e procurou as fotografias. Algo que lhe dissesse que não tinha sonhado. Algo que lhe permitisse acreditar. Que lhe tirasse a sensação de sonho e de cabeça a voar e a devolvesse à realidade. Tinha que as ver. Tinha que ser. Ele não podia lá estar. Do envelope colorido, com letras que não sabia decifrar tirou as imagens estagnadas, fixas, impressas em papel. E entre as corres garridas dos vestidos, entre as flores e as luzes da sala, encontrou aquele olhar.

 

Tinha recebido a notícia como quem cai e se levanta e só quando sente a dor percebe o que lhe aconteceu. Aturdida. Completamente. Como era possível? Eram da mesma idade. Sempre tinham vivido juntas, se bem que em casas separadas, sempre tinham sido amigas, irmãs, cúmplices de brincadeiras e confidentes de muitas novelas. Não podia ser. Já era difícil não contar com o seu abraço, com o sorriso, já era difícil só lhe ouvir a voz de quando em quando, e tudo isso enquanto pensava que ela ia voltar. Casar? Em África? Sempre tinham imaginado histórias de príncipes, princesas e haréns, tendas em plenos deserto, nómadas a cavalo, apaixonados por elas. Pelas duas. Nunca por uma só.

 

Não a devia ter deixado ir.  Devia ter-lhe contado da rudeza dos montes, das noites frias mais frias que os nossos Invernos, da luta constante contra algo que não se percebe, das caras que nos fitam, de olhos abertos, como se fossemos toda a esperança daquela vida inocente. Não a devia ter deixado ir. Conhecia de cor o desconforto, os rios de lágrimas que a Terra engole sem esforço, como tudo desaparece debaixo daquele sol abrasador. Mesmo tendo ido a primeira, ou por isso mesmo, não a devia ter deixado ir. Pelo menos nunca sozinha. Sabia bem demais que perante tanta dor, nascem sentimentos confusos, se procuram abraços onde afogar a impotência e se perdem alguns rumos. Sabia muito bem como era fácil confundir solidariedade e apoio, com carinho…e amor.

...continua.

                                                                   

publicado às 00:48


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