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CaRtA

por Lazy Cat, em 09.12.07

Querido Pai Natal

(a Ki diz que quem manda é a Mãe Natal, mas tá bem!)

 

Apercebo-me com pesar que nunca me deste nada. E olha que me esforcei. Escrevi cartas, compus poemas, deixei-te bolinhos e leite na mesa, e apaguei sempre muito bem a lareira. Porque não quero ser injusta, talvez me tenhas deixado um ou outro livro. Mas acho que isso nunca pedi….

 

Este ano, em vez de formular desejos que terminam em livros com títulos apelativos como “Alice no país das Maravilhas”, “Uma Aventura na Televisão” ou “Mais do seu PC” (sobretudo quando ainda não se tem), em vez de te pedir que me dês alguma coisa, vou antes pedir que não me dês nada. É isso. Não quero que me dês nada. Só quero que faças isto:  

 

CORTE GERAL DE ELECTRICIDADE

24 DEZEMBRO 2007 ÁS 00:01 ÀS 23:59 de 25 DEZEMBRO 2007

A NÍVEL MUNDIAL

 

E sabes porquê?

 

Porque não quero partilhar o sofá com extensões de consolas de jogos, ainda que tenham parecenças na forma com seres humanos. Não quero partilhar a comida da mesa com a casa-de-Praia-mais-linda-do-mundo e o Apartamento-mais-estupidamente-caro-de-Lisboa.  Não quero ir à missa do Galo ver desfilar os carros com que eu sonho e que tantos desconhecem, vestidos de Vison e jóias. Não quero. Quero ter companhia. Alguém com quem falar.

 

Quero jogar às sombras chinesas nas paredes, ficar acordada para ver o Pai Natal chegar. Quero prendas que caibam no sapatinho ou até em lugar nenhum, quero presentes que não se podem comprar. Quero tempo. Quero sorrisos. Não quero o pai sentado à mesa e a mãe na cozinha a trabalhar. Não quero luzes que piscam, compradas nos Chineses, com falsas músicas de Natal a tocar. Quero o coro da igreja, não quero um cd a girar.  Não quero telemóveis cheios de teclas e polegares que se doem de tanto lhes carregar.  Quero o bacalhau esperado, as batatas meias cruas, quero o sabor de improvisar.

 

Quero olhos que se procuram, corações que se abrem, mãos que se sabem encontrar. Quero caminhar em carreirinho, fazer fila devagarinho, e ouvir o sino tocar. Quero cantar canções tontas que nos fazem sonhar, fogueiras, portas abertas, que se volte a partilhar. Que se ofereçam momentos, efémeros portentos de um Natal a recordar, em que por horas apenas, entre o escuro que fica lá fora, e a luz que tarda em voltar, todos os homens do mundo, sempre diferentes mas iguais lá no fundo, à falta do que os possa alumiar, olhem para dentro de repente, descubram que são feitos de luz intensa e a deixem brilhar. 

 

Quero que por magia, toda a gente neste dia, se vista de espírito de Natal, e que à luz das estrelas, no deserto, nas cidades, nas aldeias grandes e pequenas haja musica no ar, abraços ao virar da esquina e nem uma diferença para apontar. Quero que por umas horas se esqueçam cores e padrões sociais estruturados, tudo o que sabemos deixe de fazer sentido e todos sejamos, apenas, insignificantes e pequenos, perante a magia de ser-se humano, se não para o mundo, para quem nos está ao lado.

 

Vês Pai Natal, não te peço nada, na verdade…apenas algumas horas de Humanidade…

 

 

 

publicado às 20:25


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