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Amei-te!

por Lazy Cat, em 01.12.07

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Estava na hora de arrumar, deixar a casa vazia. Este espaço já não fazia sentido. Entre os livros que ia encaixotando, encontrou um, pequeno, uma recolha de poesia francesa, de capa vermelha aveludada. Prenda dela, sem razão, num despontar de madrugada. Simplesmente deixado em cima da cama com uma nota, "Bom dia.Já fui. Volto terça-feira." Ele não leu. Nunca tinha lido nada oferecido por ela. Nunca, nem uma palavra.
Não é que não sentisse curiosidade por livros, até lia bastante. Mas não suportava as imposições das escolhas dela. Olhou para o livro uma vez e outra, algo o atraía a abrir. Sentou-se no chão, encostando-se à parede, sentiu as costas gelarem com o contacto, um arrepio despertou-o ainda mais quando do livro caiu uma folha, meticulosamente dobrada, como ela costumava fazer com as cartas, quase parecendo um origami.
E soube, no recanto mais profundo da alma, naquele lugar distante onde a dor se senta e se cala, que alguma coisa se tinha perdido. Reviu a chegada dela, o olhar inquisitivo. As poucas palavras. A espera latente. Reviu-a em roupa invernada, cansada, e ainda que constante, diferente. Reviveu o abraço hesitante, os olhos marejados, o abraço contido. A distância imposta por algo que não descobriu. Sentiu cada aresta da parede nas costas, ao ler as primeiras palavras, naquela letra que conhecia de cor, tão simples e elegante e que dizia :
  
 Meu amor.... (amor essa palavra será sempre...de sempre)
 
Não preciso de te dizer todas as vezes que pensei, todas as vezes que pus as cartas na mesa, que revi as dúvidas e as hesitações. Há coisas simplesmente que são, não têm uma explicação racional e objectiva. Poderia continuar a dizer-te que ainda sinto o que tantas vezes te segredei, nunca o disse em voz alta, temia que alguém ouvisse e esse segredo deixasse de ser só nosso, Não queria ver os teus olhos por isso sempre o disse sussurrando no teu ouvido, percebendo a tua reacção pela respiração alterada. Mas tu sabes tudo isso, sempre preferimos presumir que dizer. Ontem saí mais cedo, não sei se reparaste. E voltei um pouco mais tarde. Passei pela baixa, trouxe o teu jantar preferido, jantámos calmamente, como sempre. Reparaste que não bebi vinho? A sobremesa foi fruta, queijo e café que não bebi. E entre cada dentada, entre cada prato, procurava as palavras e o momento certo. Sempre achámos que nos sabiamos ler. Que tudo o que fosse importante seria sentido, sem ter que se dizer. Acabei por não dizer nada. Mas há momentos na vida, que devem ser partilhados. Alegrias que não se devem negar. E sei que não aguentaria partir de novo, depois de ver o teu olhar.
Levo o teu filho comigo, nesta viagem.
Tens um saco pronto no roupeiro, e a passagem. Espero-te em Paris, para comemorar.
 
O mundo parara naquele exacto momento. Comemorar? Paris? Recorda-se de ter visto um saco, correu ao sótão, guardara tudo que era dos dois lá, dias depois, o saco... remexia tudo, causando um caos, o saco...mas onde raio ele tinha metido o sacana do saco, era azul...recorda-se, Sobe ao escadote, talvez esteja em cima do velho roupeiro de mogno, encontra o saco. Nunca o tinha aberto, pensara que ela o tinha preparado  para ela. E o tinha esquecido. Pensara que nunca fora tão distraída, lembra-se de ter pensado isso. O fecho está preso. Maldito saco! Rasga-o sem cuidado e cai-lhe no colo um bilhete de avião, já amarelado. Um envelope selado com um beijo. E assim fica, prostrado, no chão poeirento do sótão, onde não chega o sol, e chora, chora amargas lágrimas de sal, por um amor que não sabia ter, por um filho, um filho...os olhos dela, a mágoa profunda...ele viu frieza. E nunca percebera, nunca até então, porque tinha saído sem levar nada. Como se voltasse amanhã, como se o mundo não tivesse parado, como se....lembrou-se de outro livro em cima da cama, lembrou-se do vento a entrar pela janela, do bilhete que dizia "Eu também não voltarei."
 
Lembrou-se de terem feito planos de irem para Paris, dela esperar que tudo fosse diferente, dela não querer ir, das conversas que tinham tido, de ser impossível os dois...Como ela pode ir ...um filho.. e continua a ler a carta:
 
Deixo-te o número do hotel em que ficarei, queria que sentisses segurança nesta minha decisão, é mais um jogo meu amor, eu vou primeiro... tenho algo mais a dizer-te, sempre duvidei do que sentíamos, era como se fosse bom demais, que se subvertesse numa rotina. Tu sempre afirmaste que não querias...
Fica nas tuas mãos. Espero-te até ter que voltar.
O bilhete não tem data, podes sempre embarcar. Estamos ambos bem, não te cheguei a contar. Tenho a certeza que é menino, já tenho nome para lhe dar. Se as coisas importantes se sentem, se tudo o que temos é tão estranhamente real, espero-te calmamente em Paris, onde conversaremos com silêncios e palavras. Nunca pensei que assim fosse, mas é como ter-te em mim, como estarmos fundidos, distantes e no entanto, ter-te sempre comigo.
 
A carta sem dia de calendário... imaginou que a leria nesse mesmo dia, não podia saber...não podia saber que de todos os livros que ela comprava, ele nunca lia nenhum.
Dobrou cuidadosamente o coração-origami, guardou-o e voltou a fechar o livro...
Olhava em frente sem nada ver, tinha passado tanto tempo mas tanto... não a procurara, sempre combinaram deixarem-se livres, e quando um quisesse partir o outro não insistiria. Recorda que essa solene combinação chegara naquele dia que tiveram uma violenta discussão por algo que nunca ficou esclarecido. Abriram a porta, Ele não ouvia nada, mas sabia quem vinha lá. Tinham passado dez anos, dez anos em que não lhe chegara uma palavra, uma recriminação, Agora ele ia sair finalmente daquela casa cheia de memórias, cheiros guardados, livros e livros oferecidos por ela, bilhetes e ... ele ja nem sabia que mais. Sentira tantas saudades.
Ouve passos, esquecera a porta aberta, a empresa de mudanças estava a chegar. Carregaram tudo. Excepto o livro de capa vermelha, que levava na mão quando puxou a porta para a fechar. Saiu disparado. Sem um último olhar. A casa dos pais dela! Como é que não se tinha lembrado antes! Os pais dela! Atravessou a estrada sem parar, atravessou sem olhar, não viu o camião a dar a volta... fechou os olhos sobre páginas soltas e um coração de origami a voar.

 

 

Amar intensamente é como a vida, tudo se transforma em pó...

.

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Escrito por Ki e Gata

publicado às 21:00


8 comentários

De ______ a 01.12.2007 às 23:18

Olha que texto mais fixe...mas já o li e qualquer lado Será?


Kiss

De O Arabe a 02.12.2007 às 01:06

Lindo e sentido conto, Gata! E a verdade é que podem carregar tudo, menos as nossas lembranças...

De V.A.D. a 02.12.2007 às 02:50

Achei o texto simplesmente fabuloso...! Nem me atrevo a alongar-me em comentários...
Desejo-te um excelente domingo!

Um beijo... :-)

De tugafixe a 02.12.2007 às 12:18

Gostei imenso!
Mas também concordo que este final era escusado.
Nem tudo na vida são fatalidades!

Um beijinho

De RASTINOIV a 02.12.2007 às 17:35

"..Meu amor..." A simples palavra "meu", já não pode referir-se ao amor; porque o amor não pode ser desenhado nem muito menos "possuído". O amor é. Ponto. Quando pretendemos desenhar o amor, apenas somos (in)capazes de esboçar um projecto inacabado...

De Cati a 02.12.2007 às 23:52

Que lindo... e ao mesmo tempo triste...
Que triste desencontro!
Antes que a vida se transforme em pó,
como todas as vidas,
temos de amar... amar muito
para partirmos com amor no coração
e deixarmos para trás um legado desse mesmo amor
em tudo o que fizemos...

Um big crazy cat kiss

De **** a 02.12.2007 às 23:55

O texto está simplesmente fantástico, li-o num fôlego.
Pode ser que nem tudo acabe numa fatalidade tão suprema mas realmente a vida é feita de feita de desencontros e acasos.
Gosto do final porque tenho tendência para acabar os poucos contos que escrevo de maneiras similares.

Sophia

De JoãoSousa a 03.12.2007 às 20:09

nem tenho palavras para comentar...

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