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Leitor de brincadeiras

por Lazy Cat, em 24.01.08

 

 

pup tired

 

 

 

Chegaram ao mesmo tempo. Eles na brincadeira, com o cão e as bolas, ele com um livro debaixo do braço. Àquela hora o sol ainda fazia franzir os olhos, ele procurou um banco abrigado, eles um pedaço de relva à sombra.

 

Deixaram as mochilas encostadas a uma árvore, tiraram a trela ao cão. Ele de livro entreaberto nas mãos, hesitava entre contemplar o singelo espectáculo ou embrenhar-se na leitura. Ficou assim, sentado, o livro preso entre os dedos, absorto na contemplação das brincadeiras da criança com a mãe e o cão.

 

Cansada de saltos e correrias, a mãe sentou-se, de costas para ele, encostada a um tronco rugoso. As pernas dobradas entre os braços, parecia observar atentamente as palhaçadas. O pequeno aproximou-se, o cão sempre no encalço.

 

- Boa tarde, minha senhora.

- Boa tarde menino. Precisas de alguma coisa?

- Sim, por acaso até preciso. Sabe dizer-me se podemos nadar no lago?

- Nadar no lago? Não me parece. Mas porquê?

- Queria que o meu cão se refrescasse, e também, molhar os pés.

 

Ele sorria, perante a seriedade do diálogo, entre um pequeno de cinco ou seis anos, muito compenetrado, escondendo o ar de reguila com modos afectados.

 

- Nadar no lago não podes. Mas tens um camaroeiro?

- Não…. Disse o pequeno desapontado

- E tens dinheiro?

- Tenho uma moeda. Porquê?

- Porque se a tua moeda me agradar, vendo-te um camaroeiro e ensino-te a pescar.

- No lago?

- Não, no riacho. Do outro lado da ponte.

 

O miúdo olhou para a ponte de madeira. Do lado de lá brilhava um risco de água fresca, que alimentava o lago do lado de cá. Tirou prontamente a moeda do bolso, resistindo às investidas do cão que pensava sem dúvida tratar-se de qualquer guloseima.

 

- Só tenho esta moeda. Se calhar não chega….

- Essa? Claro que chega, e ainda te dou troco.

 

Tirou da mochila um camaroeiro pequeno e devolveu a moeda ao rapazito.

 

- Agora vou ensinar-te como se faz. Primeiro, descalçam-se os sapatos e as meias.

- Vamos pescar descalços?

- Claro! E de calças arregaçadas! Que diria a tua mãe se chegasses  a casa

com os sapatos encharcados e as calças todas molhadas?!

- Pois… sorriu

 

Descalçaram-se, arrumaram os sapatos e de mãos dadas, seguiram para o riacho. E ele deixou de os ouvir. Ela mostrou-lhe como se apanhavam girinos, e se guardavam num saco, ele tentava em vão que o cão não lhe afugentasse as presas. Com alguma ajuda, encontrou o truque perfeito. Atirar um pão ao cão, que enquanto ia e vinha, o deixava pescar em paz. Depois de ensinada a lição, ela saiu da água e veio na sua direcção.

 

- Já leu o livro todo, ou o livro não presta? Ou somos nós que o desconcentramos?

 

Isto perguntado assim de uma tirada, enquanto devagar desenrolava as calças. Ele soltou uma gargalhada.

 

- Não, por acaso não li. Mas tenciono acabá-lo.

- A este ritmo vai demorar vida e meia!

- Costumo ler mais depressa, quando não aparece quem me distraia.

- Um bom livro absorve-nos, como a terra bebe a água. Não há nada que nos tire de lá.

- Talvez por isso o tenha mantido fechado…

 

- Mãe! O Max comeu a minha pescaria e molhou-me todo!

- Realmente! Estão os dois muito engraçados. Anda, calça os sapatos,

e vamos para casa tomar banho.

 

Entre protestos e salpicos o petiz e o cão lá se prepararam.

 

- Já? Perguntou ele algo desapontado.

- Já, o dever chama. Até amanhã, leitor de brincadeiras.

 

 

 

Deixe o livro em casa e traga umas calças velhas!

 

E desapareceram, de mãos dadas, a cantar uma canção qualquer, de tubarões e baleias.

 

Ele fechou o livro e ficou sentado. A olhar para o riacho, que mansamente entra no lago.

 

 

 

Bob_Sinclair_-_Lov...

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publicado às 00:28


10 comentários

De V.A.D. a 24.01.2008 às 03:02

Hummm... Gostei da história, o encantamento do menino aprendendo a pescar, as brincadeiras substituindo a leitura dele... Mas houve algo que não percebi (desculpa, talvez esteja lerdo). A dada altura, o menino diz: "Mãe! o Max comeu a minha pescaria(...)" Afinal, o menino estava com a mãe e com o cão, a "minha senhora" sendo outra personagem, ou houve aqui no texto alguma coisa que me escapou...?

Desejo-te uma excelente noite!

Um beijo... :-)

De Lazy Cat a 24.01.2008 às 10:20

Olá,
O menino estava com a mãe e com o cão.
Mas a mãe a certa altura deixou de ser a mãe, e passou a ser a senhora, que lhe deu um camaroeiro e o ensinou a pescar.... até chegar a hora de rumar a casa...

Não és tu, já alguém tinha achado o texto confuso.

Um beijo.

De ______ a 24.01.2008 às 13:59

Por puro acaso n achei o texto confuso mas isto sou eu q te entendo nas entrelinhas :) E gostei muito, quem me dera arregaçar as calças e poder ir agora ali ao risco de azul salgar-me, mas valores obrigatórios se impôe à minha vontade que até nem é essa prioritariamente mas enfim... e como já estou a dissertar basta-me dizer que esta história me lembrou dum rafeiro pulguento como todos os rafeiros são que era tão lapa tão lapa que até fazia olhos de carneiro mal morto para ganhar festas e colo mas eu gosto mesmo é de.... gatos :)

Hoje n me apetece beijo, aliás apetece-me nada... ele há dias assim..........

De Lazy Cat a 27.01.2008 às 20:33

Gostas mesmo é de gatos????

Ai é?

Hummmmmm

Beijos cópia de mim!

De charroco a 26.01.2008 às 10:50

Não ande triste , deprimido
Olhe que mata o coração
Dê uma volta pelo Charroco
e sinta a boa disposição


De Lazy Cat a 29.01.2008 às 13:22

Triste? Deprimida?
A gata?
hummmmmmm

De Sonhador de Alpendre a 27.01.2008 às 00:12

Excelente!

De Lazy Cat a 29.01.2008 às 13:20

So good to have you back!

De mnike30 a 27.01.2008 às 00:29

Epá!!
Este blog respira alegria e diversão!

Miau!

De Lazy Cat a 29.01.2008 às 13:21

Sim?
Respira vida, e tudo o que nela há.
Hoje é assim, alegria e água nos pés, o outro lado da vida fica para outras marés....


Beijos!!

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