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Lazy Cat

No meu cérebro vive um caos sinfónico de ideias desordenadas. Num harém simbólico, todas concorrem -APENAS- pelo teu olhar deslumbrado...

Lazy Cat

No meu cérebro vive um caos sinfónico de ideias desordenadas. Num harém simbólico, todas concorrem -APENAS- pelo teu olhar deslumbrado...

Sunrise

Janeiro 09, 2008

 

 

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No calor desse sorriso

Em que acordo e adormeço

Guardo palavras, calo gritos

No calor das tuas mãos

Que sem ver já reconheço

Sonho em doce abrigo

Um luar que só nós temos

 

No calar desse sorriso

Em noites de mar avesso

Entre os sonos que agito

Nem sempre te reconheço

Mas da voz que cala o grito

Sei de cor o travo doce

Que acalma águas profundas

Onde se enraíza o sonho

 

No brilho desse sorriso

Que me desperta de mim

Encontro abrigo certo

Em raios de lua e de ti.

   

***

 

 

Gitano

Janeiro 06, 2008

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As primeiras notas acabaram de encher o espaço onde guardava lembranças e amarguras entre imagens dispersas e raios de sol hesitantes. E uma torrente de água morna inundou-lhe o rosto sem que sequer se apercebesse.

 

Ao ritmo das guitarras lavou imagens esbatidas, lavou memórias, limpou a cinza da vida. Em reverência silenciosa deixou que se lhe escapassem da alma todas as mágoas e todas as certezas, deixando-a em branco, lavada de impurezas.

 

Procurou um lenço atrapalhada, quando sentiu o sal na boca. Uma mão saída do nada estendeu-lhe um.

 

- No tíenes más por que llorar Gitana.

 

Aceitou o lenço oferecido, secou a cara. Levantou os olhos, descobrindo o estranho sentado na outra cadeira. Um copo meio cheio à sua frente, sinal que sempre ali estivera. Mas não ela. Estava noutra dimensão, noutro mundo, noutra hora. Ali, acabava apenas de chegar.

 

- No soy Gitana.

- Nadie que no lo sea llega a esta casa!

 

Endireitou-se na cadeira, tomando consciência que podia não ser bem vinda ao local, não sendo cigana. Lembrou-se do rapaz de olhos de velho. Nem sabia o nome dele…

 

- Me trajo un chico. Paseaba junto al río.

 

- Gitana…aunque no lo quieras ser, aquela voz de veludo... el ser gitano no está en nada más que en esta luz que te puntea el alma. Aúnque te mueras mil veces y otras tantas vuelvas a resuscitar, tienes alma de gitana y  partir de esta noche, jamás lo poderás negar.

 

Levantou-se, estendendo-lhe a mão para que o imitasse. Ouviu-se um burburinho na sala.

 

- Tranquila muchacha, estás en mi casa. Y entre mis hermanos y hermanas.

 

Ele virou-lhe a cadeira, e mandou-a sentar. Os músicos preparavam-se para recomeçar, tomadas as copas. Sentou-se, as mãos nas costas da cadeira, tão direita como elas. De novo se fez escuro, de novo se fez silêncio, de novo notas langorosas de guitarra surgiram no ar.

 

Como num laivo de lucidez latente pensou em sair. Levantar-se e sair. Fugir da música, fugir da vida, fugir de tudo o que a atraía e mantinha naquele lugar.

 

Primeiro a perna, que se encostou à sua. O calor daquele peito nas costas, o cheiro, o calor da respiração calma. O corpo dele moldado no dela, sentados na mesma cadeira, respirando a um tempo só. As mãos, os dedos longos que soltaram os seus e lhe esticaram os braços,

 

- Abraza a la musica Gitana, como a un amante. Déja-la que se haga tú.

 

Entre os acordes que se entranhavam na alma e aquela voz rouca e envolvente, entre o liquido dourado que lhe tinham trazido e aquele corpo quente e palpitante, deixou entrar cada nota e cada silêncio daquela noite inebriante.

 

E deixou de ter corpo, deixou de ser, sendo apenas movimento cadenciado por outro alguém. Não havia pensar em passado ou presente, apenas a urgência contagiante de se mover.

 

Ergueu as mãos ao céu, e como se o tivesse sempre feito, balançou ao ritmo das guitarras cada vez mais presentes, ao timbre de uma voz de certa forma distante que lhe sussurrava ao ouvido:

 

- Baila Gitana, baila para tu amante!

 

Tinha vaga consciência de olhares entre os movimentos e de um par de olhos dourados, de mãos que marcavam o ritmo de pés que não sentia seus. E dançou como quem renasce entre cinzas e adeus, dançou com alma, com a força que se renova a cada ciclo que se fecha, abrindo portas e janelas aos desígnios dos céus.

 

E quando se desfez a última nota em riscos de fumo branco abriu-se a porta, que lhe estava diante, e foi de mão firme que a trouxe até à rua.

 

- No la dejes que se pierda muchacho.

 

E o rapazinho de olhar velho encostado ao muro tomou-lhe a mão, naquele lugar agora escuro, um dedo em sinal de silêncio, andando sem parar. Chegados ao banco onde a encontrara procurou-lhe os olhos:

 

- Díme quien era por favor.

 

Brilhou uma luz nos olhos escuros, devolvendo-lhe um ar de menino.

 

- El que siempre será su Gitano… Señora.

 

 

 

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Noche de San Juan

Janeiro 05, 2008

 

 

 

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Entrou com passos lentos. O escuro interior contrastava com a luminosidade das ruas, apesar de começar a entardecer e sentia-se um ar fresco, ainda que carregado de fumo de tabaco e algo que não identificava. Aos poucos foi descortinando o tablao, no canto mais afastado da sala, iluminado por um foco único. Ouviam-se respirações pesadas e sentia-se expectativa no ar. A tensão. Era esse o cheiro que se misturava com o do tabaco.

 

Três cadeiras na parte posterior, apenas visíveis, na penumbra criada pelo foco. Um silêncio quase sepulcral, não fossem os suspiros saídos da alma de alguns presentes.

Alguém lhe tocou levemente no braço e murmurou:

 

 – Vamos señorita, siente-se por favor. Ahora mismo la sirvo, que va a empezar.

 

Sentou-se na mesa que lhe indicaram, de olhos fixos naquele palco que lhe pareceu pequeno, apesar de não lhe ver o fim, e tentou descobrir a sala, sem conseguir, de tal forma estava escuro e se adensava o fumo.

 

Procurou com o olhar o rapazito que lhe tinha indicado esta taberna, mas a porta já estava fechada. Provavelmente nem tinha chegado a entrar, tendo-se retirado para angariar novos clientes uma vez seguro de que ela ia ficar. Perdeu-se a rever aqueles olhos escuros, que davam ao rapaz um ar de velho, se bem que não devia ter mais de catorze ou quinze anos. Abordara-a ao longo do rio, enquanto ela vagueava, perdida em memórias de uma vida que lhe parecia distante.

 

- Señorita, si quiere la llevo al lugar mas mágico de la ciudad. Se le soltarán las lágrimas que le inundan el alma Señorita.

 

Começou por dizer que não, mas ele insistiu.

 

- Deje-me que sea la voz de su destino, Señoria. La llevo de la mano, no es lejos. Es una noche ritual, en que se encuentran la luna y el sol, el cielo y la tierra, y se revelan las respuestas a todas las preguntas.

 

A mão dele era macia, a pele escura de cigano. Nem se tinha apercebido. A sua própria cor não era muito diferente, talvez fosse por isso.  Ainda meio perdida em pensamentos, deixou que a levasse com passo leve e em silêncio até à porta. Uma porta banal, como tantas outras, perdida numa viela banal. Nem letreiro nem qualquer outro tipo de aviso ou informação. Retesou-se brevemente, mas ele abriu a porta e com um sorriso mandou-a entrar.

 

- No dude en encontrar-se con su suerte.

 

Talvez noutras circunstâncias tivesse recusado entrar, talvez noutro momento, talvez…

 

Envolveu-a um silêncio ensurdecedor. Entraram três figuras indistintas para aquele palco rústico de madeira, sentaram-se. E começaram a tocar…

 

 

  

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E porque com o novo ano se perderam algumas coisas, eu não peço mas intimo

a Ki, o Carlos Lopes, o Lobo e a Viajante a dar um desfecho a esta história….e a pubicá-la no  domingo às 22H.

Última noite em Sevilla

Janeiro 03, 2008

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Chegaram ao anoitecer. O quarto, que não era o de sempre, pareceu-lhe velho e sombrio. Lá fora as luzes da cidade, cá dentro um calor abafado e insuportável.

Tomaram um duche rápido, por entre vapores e palavras, apenas as necessárias, e saíram. Percorreram em silêncio as ruas estreitas que tão bem conheciam, até chegar ao restaurante. Que também não foi o de sempre. Abrigado nas muralhas do castelo prometia sabores autênticos em quadro de encantar. A escolha da refeição não foi consensual, ele faminto e aventureiro, ela sem fome, apenas desejosa de comer e descansar.

 

O barulho da multidão cada vez mais densa infiltrava-se por entre as mesas, atingia e incomodava. Depois de uma sobremesa recusada e de um café insípido, pagaram e seguiram caminho. De todos os cantos chegavam vozes e risos que contrastavam com as caras do par que seguia, silencioso e afastado, entre as vielas. Desembocaram na praça. Foram abraçados pela multidão, por entre gritos e copos de bebidas de cores e cheiros duvidosos. Atravessaram e seguiram rumo ao rio, aos relvados serenos, tentado fugir aos alegres do botellón para talvez enfim conversar.

 

A cidade estranhamente estava fria, ou ela assim a sentia. As cores não eram as mesmas, nem os cheiros, nem os caminhos por onde seguia. Amava a vida daquela cidade, a alma cigana que cada pedra exalava, os segredos contidos entre pátios e sacadas. Aqui tinha dito que sim a uma vida em comum, aqui tinha firmado o pacto e aqui voltava, agora, na esperança que sentia vã, de recuperar o que outrora os aproximara tanto.

 

Voltaram para o quarto em silêncio, ela tomou outro duche, ele deitou-se na cama. Ela também, ainda molhada. Ele tentou abraçá-la, ela afastou-se, de costas voltadas. Adormeceram em silêncio, na magia da noite sevillana que outrora os encantara. E definitivamente quebraram o laço que os unia, numa cama num hotel sem nome, num quarto repleto de espaço cheio do nada que ao fio dos anos os prendera e afastara.

 

 

 

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